Exposição

ELKE

17 maio 2022

ELKE – sagrada, profana, santa, diaba

“O importante é nascer e morrer, o resto é uma linguiça que a gente enche, tendo o cuidado para não encher uma linguiça indigesta.”
Elke Maravilha

Quem sabe que vai morrer, ludibria a morte em vida. Acena, diz bom dia e até amanhã. O encontro é inevitável. Impõe a sina da escolha, da liberdade e do corpo desnudado. Há quem dance com ela em momentos relâmpagos que nos colocam em contato com o mundo e com nós mesmos. No ponto exato e congruente do possível choque, surge a máxima experiência: é quando a parte insondável da vida emerge, eixo vertical face a horizontalidade do cronômetro. Dançamos com a morte quando fazemos arte para inventar e torcer o cotidiano, quando jogamos, quando nos vestimos, quando nos maquiamos, quando sacralizamos e profanamos altares, quando organizamos as linhas do cotidiano e delimitamos o contorno da arena em que atua a crise trágica da revelação de que se morre todo dia um pouco.

Para negar o corpo sem vida é preciso encontrar esse ponto de tangência entre as coisas, mirar o reflexo e aceitar os “fatos reveladores”, que, como diz Michel Leiris, “esclarecem partes obscuras de nós mesmos, na medida em que agem por uma espécie de simpatia ou semelhança, e cuja força emotiva deriva de serem espelhos que guardam (…) a imagem mesma de nossa emoção”. Aceitar a parte obscura que nos chega é a única possibilidade de real consciência sobre nosso lugar no balanço de renovação que há entre os opostos – a vida e a morte, o bem e o mal, o bom e o ruim, o sagrado e o profano, o masculino e o feminino. Esse balanço mantém o fluxo necessário para a criação dos significados e dá, a quem sabe da morte, o poder de julgamento ético sobre as coisas. A lacuna presente entre os extremos é como um campo de batalha, onde tencionamos e significamos a vida; onde pendulamos desde nossa concepção.

Foi assim que a menina nascida em Leningrado, em ano de guerra, no dia 22 de fevereiro de 1945, passou a existir:  Elke Georgievna Grunupp, Elke Grunupp, Melissa Vassiliki, Elke Evremidis…Elke Maravilha. Foi russa, alemã, mongol, mineira, branca, preta, vermelha, roxa, lisa, crespa, frisada, loira, morena de todos os lugares e de lugar nenhum. A cada dia, uma nova Elke, uma outra, uma desconhecida, mas sempre Elke, trágica; apenas Elke – única, com toda certeza. A impermanência, e não a indefinição, gerou amor e ódio de quem a assistiu pela TV; ou na rua, de quem foi confrontado com os próprios desejos. Elke propôs o encontro e, frente a frente, desvelou o que somos no insondável.

Recebeu cuspe na cara. Foi taxada de homem, mulher, travesti, bruxa, rainha, maldita, excessiva, extravagante, rebelde. Escolheu as coisas que foi, aceitou o balanço de vários mundos e assim escapou às definições restritas. Achou a tangência, o espelho do outro. Rejeitou a riqueza. Foi madrinha dos pobres e oprimidos, crianças a quem deu sempre nota máxima. Sintam-se beijados e arrasados, dizia. Foi santa dos garis, dos hansenianos, das profissionais do sexo, dos presidiários, dos homossexuais, dos velhos. Escolheu, de coração, as causas que apoiou sabendo que, de coração, na prática, é que o esforço do bem se torna político, fora do mar das ideologias e das panfletagens.  Quem está no mundo é o mundo onde tudo cabe. Todos somos tudo, dizia Elke, santos, diabos, bons, ruins… o que escolhemos é o que se revela. Em um grande passo de mestre, Elke dançou com a morte e instituiu uma estética inovadora, presente em tudo o que criou, da casa aos palcos. Deu forma precisa e ciente à ética que propôs – um jeito Elke de pensar e estar no universo, incompleta, exatamente para dar espaço à polissemia necessária que o bailado dos afetos exige.

Elke toureou o mundo e a si mesma. Praticou o eterno “passe da beleza tauromáquica”, sobre a qual Leiris discorre[1]: dionisíaca, antagônica, desviante, ambígua, astuciosa, grave para si e para o outro. Foi além: ora touro, ora toureiro, instaurou o trágico em tudo que fez. Carregou em si a carga de perigo imprescindível para que a experiência se consolidasse como tal. Achou a lacuna e a preencheu – aqui é possível o movimento. Seja nos desfiles de moda, quando era a única a sorrir gorgonicamente sobre as passarelas (quem sorri, sabe da morte), vivificando o andar de manequim; seja pelas buzinadas emitidas junto ao painho Chacrinha, ou as controversas notas 10 presenteadas aos piores calouros para a fúria e descontrole de Silvio Santos; no vestir, no cinema, no teatro, no risco corrido nas ruas, nas boites, nas relações, no riso,  por onde passava a brecha se abria como se abrem lábios: ser de outro tempo, outro mundo, outro.

 

E o que constitui essa brecha? O que define a ética Elke de ser? O que nos é legado? Elke escolheu o sacerdócio da amizade, colocando tudo de ponta-cabeça. Declamou seu desejo aos quatro cantos, por meio de várias bocas. Comeu, deglutiu e regurgitou uma mesa posta inteira. Em um poema caro à artista, Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, disse:

Sentir tudo de todas as maneiras
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo

Há, nesses versos, a dimensão do impossível, e frente a ela, o sacrifício. O apelo à amplitude gozosa da vida, carrega consigo a necessidade de tornar sagradas as coisas que tocamos – entender a dimensão que deve ser posta à parte, compreender a falha como religião, no sentido de reler para  delimitar a separação, dando ao outro, espaço para nos adentrar e apossar, já que por peripécia, o outro nos confere propriedade e desvela nosso ser. Assim como o filho é quem caracteriza o pai, mesmo jamais sendo o pai, o outro é quem nos permite ser no mundo. Morremos para que o outro nasça e, por revelação, venhamos conjuntamente à luz. Sacrificamos para apaziguar o deus-vizinho/interno, e retornar para o uso profano das relações. “A “amizade”, diz Agamben analisando a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, é “a des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si”[2], ou seja, o amigo para tanto, precisa ser uma parte sacrificada de nosso próprio ser dentro do campo da com-divisão da própria existência.  “E é essa partilha sem objeto”, continua Agamben, “esse com-sentir originário que constitui a política” em sua origem.  Por essa razão, Elke foi guardiã da boa política do viver; entendeu a importância da amizade como arma e nunca se cansou de profetizar: Viver é pouco, o importante é conviver; viver com.

Elke pregou o amor. Colocou amor em tudo que fez. Distribuiu amor a todos a quem encontrou.  Ciente de que só estamos prontos na morte, porque não há escapatória, destilou sua máxima em guisa de instrumento para encher a linguiça da vida: Eros anikate mahan, o amor é invencível nas batalhas –  verso roubado do coro da Antígona de Sófocles,  que sentencia aqueles que amam ao que há de mais vivo[1], incerto, arriscado e humano.

A exposição que oferecemos ao visitante não é biográfica. Elke afirmava que as biografias deveriam ser destinadas apenas aos grandes homens – Alexandre, o Grande, dizia. Dessa forma, aceitou na fronte o sol, fugindo das categorizações destinadas aos comuns, revelando o  que parece, mas não é. Ela viveu todas as coisas a partir do concreto da vida e simbolizou-as pelo pensamento fruto da experiência – controlou com maestria o campo das representações. Assim, o conjunto é uma homenagem e um agradecimento pelo que Elke Maravilha nos legou em diversos campos da criação humana: na moda, na indumentária, na cultura de massa e popular, no teatro, na vida cotidiana, mas principalmente por nos ensinar a transformar ouro em palha, a despeito de qualquer certeza.


[1] LEIRIS, Michel. Espelho da Tauromaquia. São Paulo: Cosac e Naify,  2001. “No passe tauromáquico , em suma, o torero, com suas evoluções calculadas, sua ciência, sua técnica, representa a figura geométrica sobre-humana, o arquétipo, a idéia platônica. Essa beleza inteiramente ideal, intemporal, comparável apenas à harmonia dos astros, está em relação de contato, de fricção, de ameaça constante com a catástrofe do touro, espécie de monstro ou de corpo estranho, que tende a se precipitar, à revelia de todas as regras, como um cão derrubando um jogo de boliche tão alinhado quanto às idéias platônicas. Mas ainda assim teríamos apenas contraste, oposição, se o próprio passe não uma espécie de tangência, uma controvérsia imediata, seguida de uma divergência (aproximação do touro e do torero; depois separação do homem e do animal, para o qual o pano indica a “saída”). Salvo que o contato, no mesmo instante em que se vai produzir, é evitado por um triz, um desvio imposto à trajetória do touro ou uma esquiva: leve afastamento do homem, simples torção do corpo, espécie de empenamento a que ele obriga sua beleza friamente geométrica, como se não houvesse modo de evitar o malefício do touro, a não ser incorporando-o parcialmente, pelo ato de imprimir à própria pessoa algo de ligeiramente sinistro ou, para brincar com as palavras, de se tergiversar.”
[2] AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
[3] Elke chamou, diversas vezes, atenção a umas das etimologias destinadas à palavra amor, do latim a-mors, ausência de morte. Liga-se também a outros prefixos (lat. amma) ligados à condição da maternidade, ou seja, à origem da vida.

Tour Virtual

Elke Maravilha | Brasil, década de 1970 | Fotógrafo David Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles (IMS) | David Zingg registrou as mais belas imagens de Elke Maravilha. O fotógrafo, artista do ordinário-extraordinário tanto quanto Elke, conseguiu, com precisão, capturar a proposta poética da atuação de Elke, dando forma, junto à artista, ao que podemos chamar de imagens sínteses das proposições do pensamento Elke Maravilha. O resultado afirma o encontro revigorante entre Elke e Zingg. Não foi apenas vivência, antes, convivência.

Criação e salvação: o altar-espelho

“Ergo em cada canto de minha alma um altar a um deus diferente”.

Paráfrase de Elke Maravilha do poema Sentir tudo de todas as maneiras, de Álvaro de Campos

O mundo é feito de sentidos e coisas, palavras e objetos que, em amálgama, são matéria-prima para a ordenação, coerência e estabilidade necessárias aos afetos humanos. Quando nos deparamos com os objetos, ergue-se diante de nós aquilo que não é nós, mas sim representação. Os objetos nos lançam, sobre a cara, sua precariedade e inércia, qualidades do vazio que se impõe para que o representado possa fazer sentido, quando os delineamos como nosso próprio reflexo. Enxergamos, nos objetos, partes de nós mesmos. Colamos nossos desejos, miramos a imagem e a partir dela estabelecemos aquilo que nos pertence, aquilo que não nos pertence ou o que fixamos, na tentativa de ludibriar o tempo e estabilizar nossa passagem por ele. Por isso, aprisionamos o santo predileto, uma imagem por si só e para a qual rezamos com frequência, ou destacamos com cuidado fotos de revistas para colar em algum lugar recôndito. Enquadramos imagens de mundos longínquos, que garantem que não somos dali, bem como imagens de nós mesmos, em lugares aos quais gostaríamos de pertencer.  E nesse jogo de esconder, destacar, diluir, classificar, determinamos, pelo ato de expor, o conjunto das coisas que, como um espelho, são a certificação do controle sobre o nosso lugar no mundo em reconhecimento de si.

Durante sua vida, Elke manteve diversos altares. Em sua concepção estética, tudo foi altar enquanto maneira eleita de expor – entre ideias e palavras, entre gestos e indumentária, entre o espaço e os objetos. A personagem, montada dos pés à cabeça com maquiagem, peruca, roupas, adereços, movimentos, feições e palavras foi altar, construção da imagem de exposição.

 

O altar é o reflexo do que somos e de como nos enxergamos e nos apresentamos ao mundo. Nele, tornamos sagrado tudo aquilo que em algum momento, significa. Ao mesmo tempo, por contato (contágio), profanamos o que ora era sacro, e por assim fazer, alteramos nosso reflexo, aceitando novos afetos que nos transformam, sempre a partir do que recebemos pelas mãos do outro. O altar delineia, portanto, o lugar de pertencimento, e por isso, podemos dizer que ele, assim como um espelho, faz parte da máscara que vestimos enquanto gente: cristãos, judeus, muçulmanos, filhos de pai e mãe, portadores do nome que nos foi legado ou criado, elementos que transmitimos pelas formas que elegemos para dizer, falar, mover. É no altar que damos de comer aos santos, alçamos nossas orações para solucionar e formular enigmas. Diante das portas das grandes cidades, somos devorados  pela esfinge.

Quem penetrava o apartamento localizado no Leme, Rio de Janeiro, via-se dentro de um grande ser vivo. As paredes pintadas de vermelho-carne já diziam: fostes engolidos e eis aqui tudo o que confirma meu pensamento de ser mitológico. Como uma boca, buraco infernal que tudo devora, mastiga e devolve, o altar de Elke uniu objetos e imagens incongruentes, que em rede se solidarizavam para expressar a cosmovisão da artista. A profusão barroca dos objetos diluía a possibilidade de classificação rígida, intensificando ainda mais o intuito de eloquência, retórica e persuasão, apresentando a maravilha de um mundo aberto ao outro e à vida pública.

Sem sombra de dúvidas, Elke conjurou suas experiências, desde a infância. Naquele canto de sala, estão presentes os polípticos ortodoxos, o desenho intrincado das rochas mineiras, o carnaval carioca, a esbórnia de Chacrinha. O alvo final: comunicar. Dos gnomos aos colares que ora adornavam seu peito, dos veadinhos de diversos tipos, de Jesus Cristo à chaleira da avó, de Chacrinha a Buda, da boneca Emília a Exu, cada objeto foi matéria que alimentou e constitui o gene[1] da artista. Coagulação estética da incongruência do acúmulo, o altar de Elke conformou a síntese de seus afetos: tudo ou nada, conceito sem conceito, nem homem, nem mulher – gente.


[1] Gene, gênio, gente são palavras que compartilham da mesma etimologia ligadas ao sentido de origem, dar a luz, do latim: genius, gens.
Elke Maravilha | Brasil, década de 1970 | Fotógrafo David Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles (IMS)

A apátrida de Itabira

Elke mulher Maravilha
Uma negra alemã, um radar
Um mar, uma pilha
Elke mulher Maravilha
Uma branca maçã, um avatar
Um luar numa ilha
Elke mulher Maravilha
Uma deusa pagã, um sonar
Um altar, uma trilha
Elke mulher Maravilha
Uma pedra Ogã, um pilar
O ar mãe e filha
Elke mulher Maravilha
russa, grega, afegã de Dakar,
diamante e safira
Elke mulher Maravilha
índia, ninja, Titã,
néctar, lichia, guavira,
Iara, Curupira, urtiga, vampira
Elke mulher Maravilha
Orixá do Irã,
mel, manjar,
lúcida que delira,
Elke mulher Maravilha
albina, catalã, pop-star, mineira da Síria
curió, curruíra, orquídea-baunilha
Elke mulher Maravilha
galega, talismã, ímpar-par,
brilha quanto fervilha
Elke mulher Maravilha
pisciana, bambã, verbo amar,
musa culta, caipira
Clementina da Vila, antídoto de ziquezira
Elke mulher Maravilha
loba, tchan-tchan-tchan-tchan,
milenar, luz de farol de milha,
Elke mulher Maravilha
pomba-gira, Iansã, Iemanjá, Maria Padilha,
aranha, armadilha, bruxa que fada vira
Elke mulher Maravilha
imã, elo, elã singular,
Oxum versus mentira,
Elke mulher Maravilha
prussiana no afã de doar,
apátrida de Brasília, Guaira, Altamira,
pra acabar,
apátrida de Itabira.
Itamar Assumpção

Roupa de crisma | Atibaia, São Paulo, 1957 | Fotógrafo desconhecido | Acervo Instituto Elke Maravilha | Quando perguntada sobre quando tomou consciência da importância das roupas para sua expressão, Elke Maravilha respondia que foi no momento de sua crisma, a primeira vez em que estava montada dos pés à cabeça. Com muito afeto, lembra que o vestido foi completamente costurado por sua avó.

A atuação e as roupas

Na prefiguração da expulsão do paraíso, de pronto, Adão e Eva viram-se nus. Reconheceram a face da morte. Entenderam que, pelo contágio do que antes era reservado ao divino, perderam a própria divindade e, enquanto humanos, foram destinados ao desajuste com o mundo e o tempo. Há, no saber da nudez, o reconhecimento dos limites entre nossos desejos e o concreto do mundo, entre o artificial humano e o natural selvagem, entre a desarmonia de reconhecer-se enquanto falha no tempo e a harmonia de seguir infinito. Como compensação e simbologia, Deus ofereceu ao casal original dois mantos de pelagens costuradas, marcando a nova condição marginal: nem deus, nem bicho, antes crise e desacordo. Por outro lado, o manto apaziguou as chagas cotidianas, ofereceu contorno e alguma sanidade no encontro com as horas.

Embora sejamos solitários, por meio dos trajes (do lat. trahere, trazer para si), ultrapassamos nosso curto período de vida, unindo-nos, enquanto agentes históricos, aos valores coletivos do tempo. A fantasia do traje, da indumentária e da moda, perfaz o intermédio de contato entre nossa existência e o mundo, ocupando o lugar profético de união de tempos. Ela lança para o futuro, a carga do passado da qual não podemos fugir, transformando-nos em um trampolim útil entre as gerações. Marca a ruptura e a união.

A fantasia que envolve o universo das vestimentas nos coloca sempre no campo da suspensão e do paradoxo. As roupas uniformizam e distinguem, aproximam e apartam, esclarecem e enganam, camuflam e revelam, libertam e aprisionam, redimem e punem.  A aparência é incerteza, premeditação, atuação: bata de rezar para o santo, chifre e paetê para a festa do boi, salto alto para a passarela, uniforme para a parada militar. É a muleta[1] do toureiro, que em toda sorte de criação humana, serve para o julgamento ético e moral. Por um lado, as roupas nos lançam no abismo da autotraição e, como máscaras, revelam tudo o que queremos esconder, o que permite que nos reconheçamos entre o cruzamento de olhares nas ruas. As roupas são linguagem e comunicação.

Elke usou a muleta da aparência de forma magistral. Fincou a espada na dúvida e conseguiu, desde cedo, se comunicar por meio das roupas. O domínio técnico ao qual elevou sua relação com os trajes possibilitou e conformou sua existência. Como um corte preciso de navalha, a atuação moldada por toda parafernália – das botas à maquiagem de gato -, suportou os gestos, as bocas, as falas, os desejos, não apenas os seus, mas de todos aqueles dos quais Elke se colocava entre: nem emissor nem receptor, apenas Elke! Foi canal, sonar, radar, pilha, como disse Itamar Assumpção na música que dedicou à artista. Sua pele foi também a pele do outro, tensionando as relações entre a arena e a platéia. Optou por atuar de forma a esgarçar os limites do binômio instituído/ anulado. Mais do que jurada, Elke foi sacerdotisa, pois mediou universos insolúveis. Ao chamado rouco de Chacrinha: Elllllllkkkkkeeeeee Maaaaarrraaaaavviiiilllhhaaaaa, a plateia respondia aos berros: Elke, Elke, Elke – entradas triunfais que para o painho acabavam em beijo; para Pedro de Lara, seu grande parceiro, escada cômica e eterno pretendente mambembe, em coito interrompido; para Silvio Santos, em esquiva. De cada aparição, era aguardada a revelação com sujeito, verbo, predicado e ponto final que, não por acaso, marcou o torto e o direito com uma boca de batom.

Eleita do público, realizava e desmanchava em si todos os desejos, especialmente os mais secretos e rejeitados. Elke educou os velhos, conduziu os jovens. Vestida de gueixa, levou-nos a Portugal; de portuguesa, às arábias; de diva cinematográfica, aos mais nobres cabarés. Com sua imagem, Elke mitificou e ritualizou coisas, situações e pensamentos, no eterno movimento profanatório tão necessário para a construção de uma paisagem. Farol, a artista inspirou criadores do mundo inteiro e criou um léxico estético próprio, imbuído de uma concepção diversa e ampla de Brasil. Suas maiores inspirações foram o carnaval, as travestis e drag queens, o reino das crianças e dos animais, o circo, as culturas distantes, tudo o que pudesse significar. Gerações de estilistas, maquiadores, cabeleireiros, aderecistas e fornecedores colaboraram com a artista em relação íntima de amizade e troca: Zuzu Angel, Clodovil, Markito, Fernando Pires, Silvinho, Breno Beauty, Walério Araújo e tantos outros.

Por fim, com sua criação, Elke delineou um arco bem definido. Com o passar dos anos, as camadas se consolidaram, as formas foram depuradas, a intenção se tornou cada vez mais explícita. O colar de sua morte, que a artista montou durante 40 anos e que, segundo ela, só estaria pronto quando fosse brincar de outra coisa, é uma síntese de seus afetos. Ele guarda qualidades do gesto criativo da artista: o acúmulo, a incongruência, a reorganização dos sentidos pelos objetos, a sinceridade por trás da forma, o valor da construção perpétua – do que muda e nunca está acabado. Elke costumava dizer que os bichos já nascem prontos, e dava exemplo: o tigre, meu deus, que beleza, com sua pelagem; o gorila, que maravilha!  Até uma minhoca nasceu pronta!”. E concluía: o ser humano não sabe para que veio.


[1] Sobre as roupas do matador que conduz uma tourada, Michel de Leiris situa a muleta no campo do engano que estabelece o desejo que pendula entre a atração e a morte. Ele diz: “Tudo se passa, por um lado, como se os atores humanos devessem concatenar tão ritmadamente quanto possível uma série de posições, mover harmoniosamente as dobras românticas da capa, manejar suavemente a muleta – pano vermelho que, juntamente com a espada, é instrumento do sacrifício”, tudo isso revestido do faiscante “traje de luzes” (que situa o torero num mundo apartado, como fazem a máscara do ator trágico ou as vestes sacerdotais), no esforço de, graças ao jogo dos panos, integrar o touro à sua dança (…) economia de movimentos; papel do ritmo; do desembaraço com que se dão aos problemas técnicos “soluções elegantes”; noções de sinceridade, de justificação de todos os atos, de sua necessidade em vista do fim perseguido; domínio do perigo, tanto para o criador (que, a cada instante, deve se arriscar a se perder) quanto para a obra (a cada momento comprometida, constantemente feita e desfeita).

“No passe tauromáquico , em suma, o torero, com suas evoluções calculadas, sua ciência, sua técnica, representa a figura geométrica sobre-humana, o arquétipo, a ideia platônica. Essa beleza inteiramente ideal, intemporal, comparável apenas à harmonia dos astros, está em relação de contato, de fricção, de ameaça constante com a catástrofe do touro, espécie de monstro ou de corpo estranho, que tende a se precipitar, à revelia de todas as regras, como um cão derrubando um jogo de boliche tão alinhado quanto às ideias platônicas. Mas ainda assim teríamos apenas contraste, oposição, se o próprio passe não fosse uma espécie de tangência,

uma controvérsia imediata, seguida de uma divergência (aproximação do touro e do torero; depois separação do homem e do animal, para o qual o pano indica a “saída”). Salvo que o contato, no mesmo instante em que se vai produzir, é evitado por um triz, um desvio imposto à trajetória do touro ou uma esquiva: leve afastamento do homem, simples torção do corpo, espécie de empenamento a que ele obriga sua beleza friamente geométrica, como se não houvesse modo de evitar o malefício do touro, a não ser incorporando-o parcialmente, pelo ato de imprimir à própria pessoa algo de ligeiramente sinistro ou, para brincar com as palavras, de se tergiversar.”

Michel Leiris em  Espelho da Tauromaquia,  pág. 33
Elke Maravilha | Brasil, década de 1970 | Fotógrafo David Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles (IMS)

Mãos na Cabeça!

Historicamente, esforçamo-nos para sermos reconhecidos pelo outro em âmbito público. O ponto focal sempre foi o rosto e a cabeça, núcleos dos sentidos e da expressão máxima das emoções. Da mesma forma que romanos mantinham, na entrada de suas casas, uma máscara de cera representando o antepassado que dava nome à família patrícia, reis e rainhas, durante os séculos, encomendaram retratos para difundir sua imagem divina até os limites dos reinos e legar suas coroas; sultões criaram imagens suntuosas de si e garantiram a herança dos seus turbantes de joias. Enquanto Dalila cortou a cabeleira de Sansão, a cabeça de João Batista foi para o prato.

Dentro do mesmo registro, o devoto veste capuz para passar anônimo pela procissão, o brincante coloca a máscara para suspender sua identidade, o marginal cobre a cara, para não ser capturado. Ser reconhecido é sempre duas faces da mesma moeda: uma de luz, outra de sombra. A palavra latina persona, do grego prósopon ou do etrusco phersu, refere-se, em sua origem, à máscara teatral, que nada mais é do que a síntese caricatural, reconhecimento em vitro, da cara que escolhemos colocar nas ruas, nossa pessoa social. Daí: personagem, personalidade.

O retrato pintado, a gravura, a fotografia e o vídeo potencializaram o reconhecimento da personalidade que, fora do âmbito familiar, são admitidas como bens públicos. Ainda mais, estabeleceram um recorte visual, dada a intenção clara de sublinhar o que há de mais expressivo no corpo: a cabeça. Nos filmes, novelas e por trás da bancada de jurados, o close se fecha no rosto, onde estão as emoções do maravilhamento e do desagrado, onde a surpresa e o olhar nos traem.

Não é à toa que Elke elegeu a cabeça como pináculo de sua criação artística. Em ato isento de inocência, ela sabia que recuperar o valor originário da persona, assumindo a dubiedade da máscara, era a forma mais contundente de comunicar-se com o receptor. Carmen Miranda utilizou do mesmo artifício, estabelecendo um tipo que a identificava. No entanto, Elke foi além. Ao recuperar a instabilidade e mutação das imagens sob o signo da máscara, aprofundou a brecha entre reconhecimento e surpresa. Ludibriou as telas por meio da constante mutação de sua imagem. Uniu as duas faces da moeda, propondo exposição e disfarce em uma só cabeça, quase uma virtualidade.   Dessa forma, instaurou o caos do reconhecimento. Mais do que isso, fez da cabeça um altar síntese, maquiagem explícita, onde pousaram vários deuses. Multiplicou a possibilidade do intercâmbio de personas: ora pantera, ora noiva incauta, ora rainha árabe, ora camponesa farrucha. Cada peruca um flash! A novidade e autocitação, características que herdou da moda, possibilitaram que Elke, busto sobre a mesa dos jurados, close sobre os olhos pintados de gato, transmitisse suas qualidades míticas. O resultado: olhos pétreos dos espectadores sobre sua cabeça de medusa.

Cúmplices do semblante, as mãos são suas servas: seguram o cetro, abençoam e ajeitam a coroa, maquiam, atarraxam brinco, ajustam anel e, para a foto, juntam-se ao rosto em forma de asas, enquadrando o bem mais caro à imagem. As mãos também cobrem as faces, escondem o choro, trincheiras para quem espia entre os dedos. As mãos falam quando o ator, debaixo da máscara, aponta o culpado ou a amada. Quando se zangam, manobram a guilhotina que faz rolar as próprias cabeças. As mãos também possuem máscaras, guardam as digitais. Um busto sem mãos é imagem de gente morta.

As mãos de Elke também falavam e foram adornadas tanto quanto a cabeça. Com unhas sempre pintadas, os dedos foram guarnecidos de anéis que em escala se equiparavam aos adornos capilares. Cabeça e mãos compunham a imagem que, do umbigo para cima, nos chegava pelo televisor, na maior parte do tempo. A vivacidade da artista era tamanha, que desenhou e produziu anéis em forma de cabeça, talismãs que carregou para derreter a lâmina fria do microfone: de Itamar Assumpção à máscara africana, do bico de águia ao focinho de hipopótamo, ao próprio rosto da artista enquadrado em formato de sol e lua. As mãos tocaram os limites da tela. Tudo fez parte do jogo da atuação.

Elke outorgou controle total sobre sua criação: do altar, às roupas, às cabeças, botas e adereços, não tropeçou. Afastou a morte com camadas que revelam o quanto nus estamos todos, só não vê quem no rei acredita. Com as roupas, presente divino, sublinhou a injunção do sagrado e do profano que nos assola. Por mãos e cabeças, encarnou vários mundos em si. Levou a sério a máxima: quem não comunica se estrumbica, e mais, para além de qualquer controle frio, circundou a comunicação como dispositivo propulsor para outro lugares possíveis, novos horizontes. Nada é fim, tudo é meio, crianças!

“se o erotismo e a depravação comportam em sua própria essência uma intenção de transviar ou de transgredir (ao menos: de agir com excesso, com fausto, descomedidamente), encontra-se no ato amoroso, por mais simples que seja consumado, o traço original desse pecado, dessa ruptura com os limites estabelecidos, não fosse senão porque ele representa um retorno a pura nudez associal.”

Michel Leiris em  Espelho da Tauromaquia,  pág. 55

Dentre os bens mais preciosos de Elke, estavam os amigos. Eles foram muitos, foram da família, foram cuidadores, parceiros de cena, foram muitas vezes amigos de um encontro só. Apesar de tudo, sempre há aqueles que contamos nos dedos, que ocupam uma parte de nós, que queremos ter como irmão, filho, marido, ou apenas aquilo que queremos ser.

Essa seleção de imagens é dedicada aos de coração: Francisca, Frederico, Natacha, Alex, Rubens, Brenno, Wilson, Evinha, Maurílio, João, Marilene, Victor, Gandia, Pai Beto, Konstantino, Abdon, Raíssa, Vera, Wagner, Adriano, Marcio, Pedra de Cordoba, Rogéria, Mariana, Daspu em peso e tantos outros! Ao final, levamos todos Elke em nós, transformados pelo que nos legou.

Curadoria e expografia
Gabriel Gutierrez
Ubiratã Trindade

Coordenação artística e textos
Gabriel Gutierrez

Assistência de coordenação artística, pesquisa e coordenação do conteúdo de vídeo
Deyla Rabelo

Desenhos Técnicos
Raimundo Chaves

Iluminação
Calu Zabel

Cenário e Adereços
Fábio Pinheiro
João Almeida

Restauro indumentária
Alex Dario
Vitor Carpe

Organização e Produção Instituto Elke Maravilha

Francisca Grunupp
Maurilio Domiciano

Comunicação Visual
Fábio Prata, Flávia Nalon (PS.2)

Revisão Textos
Ana Cíntia Guazzelli

Produção executiva
Marcelo Comparini
Maíra Silvestre

Produção local
Alex de Oliveira
Pablo Adriano
Samara Regina

Digitalização e Catalogação  Imagens
Daniela Bonamico, Luiz Aureliano (Oficina de Impressão)

Impressão
Daniel Renault (Giclê Fine Art)

Acervos utilizados
Acervo Instituto Elke Maravilha
Acervo Instituto Moreira Salles
Acervo Instituto Zuzu Angel
Acervo Gabriel Gutierrez

Montagem
Diones Caldas
Erika Almeida
Fábio Nunes Pereira
Fábio Pinheiro
João Almeida
Luty Barteix
Nebraska Diamond
Rafael Vasconcelos
Renan José
Roberta Santos

CENOTECNIA

Pintura
Cleiton Pinto Chaves
Francivaldo Santos Silva
Gilvan Brito
Pablo Victor Cutrim Brito

Serralheria
José de Souza Cantanhede

Elétrica
Jozenilson Leal

Marcenaria
Dyomarcos Frazão Ribeiro
Edson Diniz Moraes
Lécio Reis Ferreira da Silva
Nerilton Fontoura Barbosa

Molduras
Fast Frame

Direção
Gabriel Gutierrez

Assistência de Direção
Deyla Rabelo

Coordenação do Programa Educativo
Ubiratã Trindade

Educadores
Alcenilton Reis Junior
Maeleide Moraes Lopes

Estagiários do Programa Educativo
Amanda Everton
Carlos Eduardo Carvalho

Coordenação de Comunicação
Edízio Moura

Fotografia, Design e Assistência de Comunicação
Clarissa Vieira

Coordenação de Produção
Alex de Oliveira

Produtores
Pablo Adriano Silva Santos
Samara Regina

Coordenação Financeira
Ana Beatris Silva (Em Conta)

Financeiro
Tayane Inojosa

Administrativo
Ana Célia Freitas Santos

Recepção
Adiel Lopes
Jaqueline Ponçadilha

Zeladoria
Fábio Rabelo
Kaciane Costa Marques
Luzineth Nascimento Rodrigues

Manutenção
Yves Motta (supervisão geral)
Gilvan Britto
Jozenilson Leal

Segurança
Charles Rodrigues
Izaías Souza Silva
Raimundo Bastos
Raimundo Vilaça

 

Presidente do Conselho de Administração
Luiz Eduardo Osorio

Presidente do Conselho Fiscal
Rodrigo Lauria

DIRETORIA EXECUTIVA

Diretor Presidente
Hugo Guimarães Barreto Filho

Diretora Executiva
Flávia Martins Constant

Equipe Gestora
Gisela Rosa
Luciana Gondim
Marize Mattos