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Uma girafa e um peixe esculpidos em madeira e fartamente coloridos, dispostos em um armazém de Água Doce do Maranhão, chamaram a atenção da equipe do Mapearte*, em março de 2017. Saíram à procura do autor e o encontraram em seu sítio, criando outros bichos. Para deleite dos pesquisadores, anexo à casa havia um quarto repleto deles. Até então, suas criações tinham saído dali somente para presentear amigos e vizinhos, como Charles, o dono do armazém.

Hiorlando foi o nome que lhe escolheram antes do nascimento. Na hora do registro, no entanto, seu pai preferiu homenagear o avô do menino e trocou para João Pereira Marques. Nasceu, em 1963, nessa região de paisagem deslumbrante, entre os Lençóis Maranhenses e o Delta do Parnaíba, no povoado João Peres, em Araióses. Depois mudou-se para o antigo povoado de Frecheiras, mais tarde emancipado com o nome de Água Doce do Maranhão, onde mora até o hoje, no sítio que foi de seus pais.

Trabalhou na salina de uma ilha próxima e como estivador marítimo, substituindo seu pai, até que uma queda, há pouco mais de 10 anos, lesionou sua coluna e restringiu sua mobilidade. Foi nessa época que deu vazão à vontade de esculpir a madeira, que vinha carregando há muito tempo. Fez um leão marinho bem grande e botou debaixo do cajueiro. Foi sucesso na vizinhança.

Outros bichos foram surgindo de acordo com o que cada galho parecia sugerir. Ultimamente os documentários de tv sobre animais têm desafiado o artista a criar escorpiões, aranha de oito olhos, centopéia e bichos desconhecidos.

eu gosto mesmo é de fazer bicho doido,

qualquer um da água ou do seco eu faço,

eu tenho facilidade com essas coisas, diz ele.

Embora não goste de criar bonecos, os poucos que fez são também muito bons, todos usando crachá, com nome e sobrenome sugestivos…

Hiorlando desenvolveu uma linguagem muito característica, uma expressão individual que faz dele um artista popular.

Galhos do cajueiro, tamboril e cedro são as madeiras que costuma usar. Em suas peças, passou a assinar Hiorlando, corrigindo a troca de nome, que acredita ter lhe atrapalhado por muito tempo.

Seus bichos de olho vivo e cara sapeca carregam a alma do artista

Temos um enorme prazer em compartilhar essa descoberta e trazer essa fauna animada para o desfrute de todos.

Hiorlando merece ser conhecido para além das águas doces do Maranhão.

 

Paula Porta

curadora

dezembro de 2017

 

*Mapeamento e Documentação do Artesanato Maranhense, projeto do CCVM em parceria com o Governo do Maranhão, que conta com o patrocínio da Vale. A equipe de pesquisadores percorre os municípios em busca dos artesãos em atividade, registrando seu trabalho com o objetivo de produzir um banco de dados, de livre acesso, para divulgar esse patrimônio cultural do Maranhão e criar oportunidades. A primeira etapa contempla 100 cidades, 24 já foram visitadas. Esta exposição e o Mercado Curiá são os primeiros desdobramentos do projeto.

Caranguejo_Hiorlando
cabeça da girafa
ChupaCabra_Hiorlando_FotoDivulgação

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