Resistências Originárias

A obra de Christine Leidgens é um território de encontros e permanências. Com profundidade e respeito, registra modos de vida enraizados na relação direta com o território e na preservação de memórias coletivas. Ao longo de décadas de trabalho na América Latina, África e outros países, a fotógrafa construiu um acervo que ultrapassa a função documental, estabelecendo  um campo de diálogo entre culturas, histórias e paisagens. A exposição reúne imagens captadas em diferentes contextos: trabalhadores indígenas da Bolivia; quilombos e povoados negros da Amazônia e Africa que mantêm vivas tradições ancestrais; o povo Piaroa, na Venezuela, com seus saberes sobre o uso sustentável da floresta; todos protagonistas de uma história marcada pela luta e pela organização comunitária. Em todos esses encontros, Leidgens produziu retratos que valorizam a diversidade cultural e revelam a complexa teia de relações que sustenta a vida nesses territórios.

Cada série presente na exposição evidencia a capacidade das comunidades de articular passado e presente em práticas cotidianas, resistindo às pressões externas e reafirmando identidades.

Seja no movimento das festas populares, na precisão das técnicas artesanais, na rotina de trabalho ou no gesto de partilha, suas imagens revelam que a cultura é um elemento central de continuidade e transformação. Ao unir sensibilidade artística e rigor documental, Christine Leidgens oferece ao público uma oportunidade de reconhecer a autoria desses povos na criação de mundos, linguagens e saberes.

O Instituto Cultural Vale tem o prazer de receber o visitante e compartilhar essas imagens tão preciosas, convidando-o a mergulhar no universo de Christine Leidgens e a reconhecer, em cada fotografia, a força de quem insiste em originar o mundo todos os dias.

Boa visita!

Instituto Cultural Vale

Pela visão comprometida e autônoma

 

O que é Humanidade? É um predicado que as coisas possuem, em comum, quando vistas como fotos˜.
Susan Sontag, Sobre Fotografia

 

A fotografia é uma invenção ocidental. Ela, assim como o relógio, o fonógrafo ou o computador, faz parte da elaborada cadeia de valores e relações com a memória que tornou o Ocidente o que ele é. Para compreender melhor a visão fotográfica no encadeamento da história, podemos falar sobre a escolha e o avanço da máquina; sobre a necessidade de fixidez do tempo, que contribui para o dissecamento da ética em moral; sobre a necessidade de produzir fatos históricos para a lógica historiográfica de organização da memória; e sobre a grande exigência de verossimilhança, enquanto sensação de real, para um mundo regido pela eternização dos segundos, ou seja,  pela morte em vida. Não podemos esquecer também a supremacia do controle e da persuasão pela imagem. A representação e a difusão realista, enquanto amplo espectro de mediação, são valores estimados pelo Ocidente e perseguidos em todas as suas formas. Eles possibilitam a criação de um âmbito que se sobrepõe ao real. No mundo regido pelas imagens, o representado ganha valor hiperbólico, assumindo regência sobre a verdade das coisas. A foto de uma flor torna-se mais flor que a própria flor. Isso, desde que optamos pelos ícones.

É comum aproximar o clique da máquina fotográfica ao disparo dum revólver. Há o medo e   a apreensão diante da certeza de termos sido capturados em imagem. Nesse momento, sentimos o primeiro assombro diante da possibilidade de reconhecermos a própria imagem. Há sempre uma parte de nós que se vai. O ato de ser fotografado é uma entrega, e por isso a raiva assoma todos aqueles que têm sua imagem roubada ou mal projetada. Não à toa, indígenas de várias etnias acreditavam que sua alma era sequestrada ao serem fotografados pela primeira vez. Como alguém prestes a ser executado, diante das câmeras, vivenciamos a mesma suspensão espaço-temporal.  O medo final inunda a expectativa sobre quem e como, enquanto espectador, levará nossa parte sacrificada. Se, por um lado, os olhos detrás das lentes recortam, distorcem, editam e objetivam, por outro, são eles que desvelam o que há no avesso das coisas. A fotografia, como bem coloca Benjamin, desrritualiza para expor em comunicação.

Assim, é facil concluir que a fotografia encerra em si um tipo de visão fruto da partilha entre os processos e limitações da máquina e o conjunto de contornos técnicos e semânticos que o fotógrafo elabora para a produção de cada imagem. É curioso notar a redução que o mecanismo fotográfico impõe à experiência humana das coisas. Por mais que possamos considerar o olho ativo como decisor da percepção, não podemos relevar o fato de que a lente, o visor ou o quadro reduzem dois olhos em um só, catalisando o paradoxismo próprio da imagem fotográfica. Mesmo com a invenção de visores que nos apresentam uma percepção mais final da intenção imagética, estamos reduzidos ao quadro, ou seja, a um único furo fixo, sem possibilidade de desvio lateral ou escapatória. O que o olho esquerdo nega ao direito, a fotografia concentra em afirmo-negação. Mesmo o objeto mais horrendo, por exemplo, ganha beleza na imagem fotográfica. A mais pura e dura verdade é relativizada. A dor mais intensa é distanciada pela qualidade do que Sontag chamou de embelezamento, vide a alienação liberalizante do mundo.

No entanto, parte do paradoxo fotográfico nos coloca para além das contrariedades, já que as imagens clareiam nossos olhos. Por isso, a exposição que oferecemos a você, visitante, foi montada com o objetivo de clarear alguns fatos, mantendo lealdade ao desejo expresso por Christine Leidgens em cada clique. Ela conta que sua mãe a repreendia, dizendo: ˜Você não vai mudar o mundo˜! Contudo, o reconhecimento daqueles que viam suas imagens dizia o contrário. Com admiração, é fácil identificarmo-nos em projeção sobre os objetos e sujeitos retratados. As imagens não mudam o mundo em absoluto, mas possuem a capacidade de nos responsabilizar, de alguma forma, pelo que vemos e conhecemos por meio delas, senão diante do outro, ao menos diante de nós mesmos, frente à vida.

Christine Leidgens é uma fotógrafa que, na perspectiva brasileira, pertence à terceira geração de fotógrafos viajantes, o que significa fazer parte do grupo daquelas (no feminino, pois foi uma geração de mulheres) que, para além do mero registro expedicionário e exoticista, decidiram mergulhar no convívio com as comunidades retratadas, propondo novas formas para o fotojornalismo e, principalmente, para a transmissão do fazer fotográfico. No caso de Christine, podemos dizer que a fotógrafa funcionou como um elo de transição, já que, em sua permanência em meio aos povos originários (comunidades afro-indígenas) possibilitou a passagem de bastão para que, hoje, as próprias comunidades produzam suas imagens de registro.

Ainda que não de forma direta e intencional, o contato aproximado com os sujeitos retratados, bem como a participação de Leidgens nas atividades do cotidiano, estabeleciam um duplo fluxo de trocas e abriam a possibilidade para a experimentação e o interesse pela técnica fotográfica. O exemplo mais flagrante desse movimento é a fundação do Espaço Fotográfico do Quilombo do Frechal, que consiste em uma casa quilombola dedicada à memória imagética, mantida pela comunidade e para a comunidade.

O trabalho de Christine Leidgens, assim como as experiências que ela relata em histórias sobre suas passagens pelos locais que fotografou, evidencia o papel específico que a fotografia desempenha para as comunidades originárias, especialmente no contexto latino-americano. Historicamente, cada um desses povos teve que lutar para garantir o direito à terra e melhores condições de vida, valendo-se, sobretudo, da resistência cultural, que atesta a condição de originalidade e originariedade de cada grupo. A fotografia, dominada por eles, por mãos próprias, legada pela fotógrafa, configurou-se como uma arma potente de reativação de memórias e reconhecimento de seu lugar central no jogo político, enquanto agentes criadores de autonomia.

 

Resistências Originárias

De todas as questões humanas, talvez a luta pela propriedade da terra – ligada à essencial e urgente necessidade de produção de cultura e, por sua vez, de autonomia – seja a mais antiga e permanente. A exposição Resistências Originárias oferece, ao olhar do público, os registros flagrantes captados por Christine em seis comunidades originárias, indígenas e negras. O fio condutor é a insurgência cultural, fruto da relação com a terra. Optamos, pela disponibilidade espacial e pela ênfase da narrativa escolhida, por separá-las em dois núcleos abrangentes, agrupando séries por similaridade ou contraste. De partida, o visitante  é inundado pelas imagens realizadas nos terreiros de Tambor de Mina e Candomblé, do Maranhão, mais especificamente de São Luís. Decidimos começar pelas imagens do lugar que destacam a importância da cultura na reinvenção das tradições por meio da memória viva.

Em seguida, esta sala contém fotografias de duas comunidades que, por terem conseguido se manter completamente autônomas, transbordam alegria e força de vida. É o caso do Quilombo Pioneiro de Frechal, do Maranhão, que nasce, desde sempre, do desejo de liberdade e do fazer vital por si; e a comunidade indígena Piaroa, da Venezuela, que às margens do Estado e da institucionalidade arranjou meios de perpetuar a própria agência. Ambas as comunidades são exemplares e atestam, mais uma vez, a importância da autonomia para reverter o crime da colonialidade.

A segunda sala abriga núcleos representativos de grupos sociais que tiveram histórias de resistências mais diversas: as comunidades negras do Equador, do Benim, e de uma comunidade mineira do Altiplano Boliviano. San Lorenzo e El Chota nos oferecem registros de duas populações negras equatorianas que, ocupando paisagens opostas – o literal e as montanhas -, mantiveram-se fiéis à sua origem, produzindo a cultura que se tornou símbolo nacional, como costuma ocorrer. No conjunto dedicado ao Benim, constatamos o quanto o culto aos Voduns, que muito contribuiu para as expressões afro-brasileiras, permanece como instância formadora dos sujeitos que habitam o país. Por fim, os retratos dos indígenas bolivianos nos oferecem um contraponto preciso, duro e melancólico da subjugação pelo Estado e da perpetuação dos padrões coloniais de pobreza material. Mesmo assim, as imagens cortantes testemunham a força do pensamento popular que urge e irrompe com poder e com as forças naturais.

As fotografias podem não mudar o mundo, mas testemunham aqueles que tentaram fazê-lo no cotidiano, cotovelos unidos, em práticas autônomas. A visão fotográfica de Christine Leidgens, nesse momento de escolha discursiva e exposição, pode, se quisermos, tomar nossos olhos em partilha. Esse vai e vem do olhar, a suspensão posta diante das imagens, a distância e a aproximação das realidades retratadas, convidam-nos a corroer o que temos no íntimo, inspirando-nos, em convite, à solidez, à liberdade e à autonomia.

 

Gabriel Gutierrez
São Luís, 12 de agosto de 2025

BRASIL QUILOMBO DE FRECHAL

Quilombo de Frechal: Território Negro Originário

O quilombo é um território originário por excelência, pois, fundado a partir das relações estabelecidas entre ex-escravizados libertários e suas terras de habitação e sobrevivência, inaugurou uma nova forma de estar. A terra é a herança da condição de originariedade, assim como no caso das comunidades indígenas brasileiras que, apesar da imposição à marginalidade colonizadora, continuaram a produzir cultura como forma de resistência. O Quilombo de Frechal está localizado no município de Mirinzal, no Maranhão. O território maranhense contém mais de 2.025 comunidades quilombolas, sendo, por isso, um dos importantes centros de luta pelos direitos das comunidades negras no Brasil. Frechal foi a primeira comunidade quilombola a conquistar o reconhecimento oficial sobre a ocupação da terra, após intensa mobilização comunitária. A demarcação do território de Frechal representou, para além de um marco jurídico, a intensificação e renovação das reivindicações por políticas de reparação que hoje impactam dezenas de outras comunidades quilombolas e extrativistas no país.

O processo de visibilização e legitimação de Frechal esteve diretamente ligado à atuação de seus moradores, bem como ao apoio de outras lideranças locais, ativistas e artistas comprometidos com as causas quilombolas. Dentre eles, a fotógrafa Christine Leidgens, que morou na comunidade por seis anos durante a década de 1990, registrou o cotidiano dos frechalenses na série fotográfica intitulada Frechal, Quilombo Pioneiro no Brasil: da escravidão ao reconhecimento de uma comunidade afrodescendente.

As imagens, capturadas pela artista, documentam com precisão aspectos da vida cotidiana, do trabalho da terra, da fé, das festas e dos vínculos comunitários.

As fotografias de Leidgens, para além do testemunho visual e estético, contribuíram diretamente para a criação do Espaço Fotográfico do Quilombo de Frechal, o primeiro desse tipo no Brasil, o que favoreceu diretamente a preservação da memória quilombola e a luta empenhada na conquista do título de Reserva Extrativista, concedida pelo governo brasileiro em 1992.

Ao registrar Frechal em sua complexidade, Leidgens evidenciou o papel central do fazer cultural para a construção de resistência. Entender as comunidades negras como produtoras originais de valor simbólico evidencia que o direito ao território físico se sobrepõe e confirma o direito de existir a partir de lógicas próprias e autônomas. As imagens de Christine reconhecem a cultura como instrumento de organização, coesão e defesa territorial, garantindo a solidez da estrutura social de permanência na terra.

Frechal é um exemplo da formação cultural brasileira, processo que não se inicia nos centros institucionais, mas sim nas margens, a partir das heranças negras, indígenas e populares, presentificadas pela ancestralidade. São as práticas dessas populações que compõem os principais elementos do imaginário, dos saberes e dos costumes que definem o país. Nesse sentido, Frechal não é exceção, mas síntese.

Gabriel Gutierrez
São Luís, julho de 2025

“As palmeiras nascem da natureza, não se derrubam, são benditas” – Berinha

Um povo que não guarda nem cultiva sua memória é um povo dominado.

A palavra FRECHAL significa viga de madeira sobre a qual se apoia a estrutura do telhado de uma casa. No sentido figurado, os negros de Frechal representaram, no passado, a viga-mestra que sustentou a fazenda dos Coelho de Souza; 

viabilizando a luta das comunidades remanescentes de quilombos pelo direito à cidadania. Hoje, Frechal é referência de autonomia e resistência.

As mulheres de Frechal desempenharam um papel central na resistência cultural e territorial.

“Se não fossem as mulheres de Frechal, não estaríamos aqui. Eu disse para o Tomás (fazendeiro): só saio daqui se ele fizer um caixão para caber duzentas pessoas! ” – Doroteia

“Mal tendo chegado à Frechal, no dia do aniversário da Associação dos Moradores, eu soube, com espanto, que a casa de Duzinha tinha sido incendiada na véspera pelos capangas da fazenda. Enquanto o brilho das lamparinas vibrava nos cantos mais escuros das casas dos moradores, a luz elétrica irradiava no casarão do dito proprietário;

A cena estava plantada! Foi o começo de uma longa e espinhosa jornada, da qual a comunidade pioneira saiu vitoriosa pelo reconhecimento do território quilombola no Brasil”. C.L

A economia familiar em Frechal continua baseada no uso comunitário dos recursos naturais. Atualmente, outras fontes de renda se somam a essa prática, com a presença de professores, empreendedores e servidores públicos que trabalham em cidades vizinhas. Hoje, a comunidade conta com o Espaço Fotográfico, o restaurante Tempero da Casa e o escritório do Instituto Chico Mendes (ICMBio). Observa-se também que a população se atualizou em termos de comunicação, utilizando celulares, formações on-line e redes sociais, integrando-se ao mundo contemporâneo.

A terra não deve ter proprietários; somos apenas hóspedes da vida, responsáveis por cuidar dela e respeitar sua continuidade.

Os conceitos de quilombo e quilombola foram ressignificados, deixando de se referir apenas a grupos de escravizados fugitivos do passado. Atualmente, passam a designar as terras ocupadas por afrodescendentes, reconhecidas como instrumento de preservação da identidade e das riquezas naturais do país.

Atualmente, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) atua na valorização do patrimônio de Frechal, por meio do tombamento do quilombo, instrumento fundamental para a proteção dos seus bens culturais, a difusão de ações e o fortalecimento da comunidade na defesa de seus saberes e territórios. 

“Ele queria nos botar para o Sertãozinho, nós falamos: é ele que vai pra lá, pro inferno!” – Socorrinho

O calendário das festas na comunidade de Frechal confunde-se com o calendário litúrgico da Igreja Católica e com a religiosidade popular, integrando cultos aos santos, promessas, ladainhas, terços, pastores, dança do congo, o tambor de crioula em homenagem a São Benedito, padroeiro da comunidade.

Os diversos rituais afro-maranhenses guardam e conectam valores culturais e religiosos africanos e indígenas. São força ancestral viva, guardiões da memória afro-indigena que promove autonomia.

VENEZUELA - TERRA INDÍGENA PIAROÁ

Christine Leidgens: Um Testemunho Visual de Memória e Resistência

Quando Christine Leidgens chegou à Venezuela, no início da década de 1990, foi movida por um genuíno compromisso com as comunidades indígenas. Sua integração ao Centro de Educação e Promoção para a Autogestão Indígena (CEPAI) foi resultado de sua ampla experiência de trabalho no Quilombo Frechal, no Brasil. No entanto, sua atuação na Venezuela tomou uma dimensão única ao tornar-se uma testemunha silenciosa e profunda do esforço dos indígenas Piaroa de Chavaichinoto na produção de óleo de patauá.

Ao contrário de outros voluntários que chegavam com papéis predefinidos, Christine mergulhou na vida cotidiana da comunidade, permitindo que seu trabalho fluísse no ritmo do povo. A missão não era intervir nem assessorar, mas registrar, com sua lente, cada detalhe de um processo ancestral, realizado com técnicas transmitidas de geração em geração. Desde a coleta dos frutos até a prensagem e o envase do óleo, Christine documentou algumas das etapas, sem impor estruturas externas, apenas seguindo o curso natural do trabalho dos Piaroa.

A integração da artista à comunidade de Chavaichinoto foi autêntica. Os habitantes a acolheram com confiança e, durante o tempo que passaram juntos, Christine não apenas registrou imagens, mas compartilhou momentos, aprendizados e desafios. As fotografias realizadas junto ao povo Piaroa, para além dos processos técnicos do trabalho da comunidade, refletiam o espírito e as cerimônias de um povo que, apesar das interferências externas, soube manter sua identidade e autonomia.

Mais do que um testemunho visual, a coleção fotográfica se propõe como a ferramenta de memória que permitiu aos Piaroa analisar mudanças ambientais, tecnológicas e culturais em sua comunidade.

A ocasião da exposição do trabalho de Christine em Chavaichinoto foi um acontecimento comovente. Para muitos moradores, foi a primeira vez que contemplaram seus próprios rostos com detalhes, uma experiência transformadora para quem, por costume, raramente usava espelhos. Idosos, jovens e mulheres encontraram, em suas fotografias, um reflexo de sua espiritualidade e identidade, um elo com o passado e uma reafirmação de sua resistência cultural.

Com o passar dos anos, a coleção passou por diversas instituições, como a Fundação Causa Ameríndia e a Fundação Orinoquia, onde permanece sob custódia e exibida permanentemente em Caracas. No entanto, os Piaroa de Chavaichinoto expressaram o desejo de que as imagens retornem à sua comunidade, onde desejam reencontrar-se com o legado visual que Christine ajudou a imortalizar.

Mais de 30 anos depois, este trabalho continua sendo um testemunho da história viva de Chavaichinoto e uma homenagem à resiliência dos Piaroa. As imagens não apenas capturam um instante no tempo, mas transformam o passado em um presente eterno, reafirmando o valor do conhecimento ancestral e a força de um povo determinado a contar sua própria história.

Hernán Francisco González
Caracas, 25 de abril de 2025

Localizada no município de Ceden, no estado de Bolívar, a comunidade Piaroa de Chavaichinato continua preservando sua autonomia territorial e permanecendo culturalmente firme.

“Ainda me lembro da vista, do céu para terra, de uma casa com um grande chapéu pontudo no meio da floresta amazônica, como uma paisagem de conto de fadas onde nosso avião iria pousar. Recebida com gentileza pelos aldeões reunidos, eles me chamaram de “esquilo”. Pensei que iriam escolher um bicho grande!” C.L.

As pinturas corporais representam vínculos com os espíritos da floresta, dos campos e dos rios. Alguns desenhos são usados em cerimônias de iniciação de meninas e meninos.

No coração da Amazônia venezuelana, no estado de Bolívar, encontra-se a notável Universidade Indígena da Venezuela, cujos promotores e gestores são as próprias comunidades. Ela revitaliza a cultura dos povos indígenas, garante a soberania de seus espaços, promove o desenvolvimento endógeno e o respeito à natureza.

Os indígenas praticam uma economia autossustentável que honra a abundância da terra. Cultivam mandioca, milho e outros tubérculos, coletam frutas, patauá e cacau, além da caça e da pesca.

Os Piaroas são parte inseparável da floresta, mais do que simples habitantes. Seus conhecimentos e rituais dão testemunho de uma visão do mundo que resiste e entrelaça os seres humanos com a natureza, numa teia de reciprocidade e respeito.

Cerimônia ancestral realizada anualmente, com oferendas, solicitando boa colheita e saúde para todo o povoado.

Embora, atualmente, o cacau seja o principal recurso econômico, el seje ou patauá, famoso por seu óleo, ainda é colhido e beneficiado pela comunidade. O conhecimento sobre a produção do óleo de patauá é transmitido de geração em geração. Este óleo não apenas nutre, como também cura.

EQUADOR - SAN LORENZO E EL CHOTA

Equador Negro: San Lorenzo e El Chota

A presença negra no Equador remonta ao tráfico transatlântico, que, entre os séculos XVI e XIX, transportou milhões de africanos escravizados para as Américas. Embora o território equatoriano não tenha sido um destino central nesse circuito, há registros de três ondas migratórias que marcaram a chegada de populações negras ao país.

Em meados do século XVI, o navio espanhol La Concepción, em 1553, que transportava africanos escravizados entre Panamá e Lima, naufragou na costa de Esmeraldas. Os sobreviventes refugiaram-se nas florestas tropicais da região, onde organizaram comunidades autônomas, conhecidas como palenques.  Lideradas por figuras como Alonso de Illescas e Andrés Mangache, as comunidades, em aliança com povos indígenas da região, conquistaram tal força e autonomia que, em 1599, obrigaram a coroa espanhola a reconhecer sua autoridade local. Assim, consolidou-se a República dos Zambos de Esmeraldas, um dos primeiros exemplos de organização política afro-indígena na América.

Já no final do século XVII e ao longo do século XVIII, muitos africanos escravizados chegaram ao Equador trazidos do porto de Portobelo, atual Panamá, pela Companhia de Jesus. Esses grupos foram levados para trabalhar nas haciendas jesuíticas de açúcar, algodão e gado localizadas no Vale do Chota e ao longo do rio Mira, nas atuais províncias de Imbabura e Carchi. Etnias como os carabalí (originários das regiões que hoje compõem a Nigéria e Camarões) e os congos chegaram ao território equatoriano entre 1690 e 1760. Com a expulsão dos jesuítas em 1767, cerca de 2.600 africanos permaneceram nessas propriedades, dando origem às comunidades negras atuais do norte da serra equatoriana.

A terceira onda migratória ocorreu no início do século XX, vinculada à construção do Ferrocarril Transandino, que ligaria Guayaquil e Quito, atravessando os Andes. Cerca de 4.000 negros, principalmente jamaicanos, foram contratados como operários. Muitos deles permaneceram no país após a obra, estabelecendo-se em Durán (Guayaquil).

Na década de 1980, a fotógrafa franco-belga Christine Leidgens percorreu essas duas regiões e registrou o cotidiano dessas populações negras do Equador. As imagens revelam o olhar cuidadoso da fotógrafa sobre o cotidiano e seus afetos. Dos gestos de trabalho aos vínculos familiares, das festas aos espaços domésticos, as fotografias de San Lorenzo e El Chota formam um registro raro sobre a negritude andina e costeira, produzido num momento anterior à adoção de políticas públicas específicas para populações afrodescendentes no país.

Nas imagens de Leidgens, a cultura afro-indígena afirma-se como alicerce de autonomia e resistência. As comunidades retratadas, que respondem em sua relação com a paisagem, transbordam estética própria, revelando formas de viver ligadas à criação de tradições abertas, livres e ligadas à ancestralidade africana. A música, por exemplo – com a presença do curralao de marimba na costa pacífica e o ritmo da bomba no Vale do Chota – é expressão viva da ancestralidade africana. Ao captar as pessoas em seus lugares, nas camadas da vida social, Leidgens revela a origem dos sentidos das coisas e do mundo, retrato do que há de mais humano. Entre a memória e a reinvenção vital reside a afirmação diária, cotidiana e alegre da existência.

Gabriel Revelo
Quito, julho de 2025

“Ainda me lembro deste vagão único e singular, como os trens fantasmas dos parques de diversões, que nos fez descobrir, ziguezagueando a cada curva, os segredos dessa floresta deslumbrante. Partindo da cidade de Ibarra, paramos nas aldeias isoladas do mundo do Vale de El Chota, até o fim deste caminho… 

Lá, no fim do mundo, o mar e o improvável encontro com San Lorenzo. Foi a primeira vez que encontrei, de fato, a alegria e a liberdade das comunidades negras. Minha união de alma foi instantânea”. C.L.

BENIN - DAS RUAS AO VODUM

Benin X Brasil

O visitante poderá comprovar, apreciando as imagens aqui apresentadas, a resistência, a conexão e a aproximação dos diferentes corpos humanos originários de dois continentes: a África e a América. Apesar das diferenças, semelhanças históricas aproximam e conectam essas pessoas na luta contra o colonizador. Por um lado, os territórios dos povos originários das Américas foram invadidos, suas populações dizimadas aos milhões, suas histórias e identidades negadas e destruídas. Por outro lado, grande parte dos habitantes da República do Benin chegou aos territórios ameríndios para, assim como estes, ser escravizados, ter suas riquezas naturais, suas histórias e identidades pilhadas, negadas e destruídas. Ambos os lados do Atlântico resistiram em defesa de suas liberdades, dignidade e identidade cultural. Para além dos discursos e textos escritos, que costumam abstrair a fisicalidade dessas populações, a exposição Resistências Originárias propõe recuperar o valor concreto da luta de cada uma delas.

As imagens servem como documentos históricos desses corpos, suscitando a atenção de quem nunca os viu ou conheceu. Que impacto! Diante das imagens, abrem-se universos de trocas multiculturais e multirraciais, que não apenas permanecem no campo dos sentidos, mas colaboram concretamente para uma educação libertadora, revelando a inegável luta que cada corpo comunitário empreendeu para sua própria liberdade. No processo de construção de uma educação libertadora, de acordo com as leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da história e da cultura africanas, dos afrodescendentes e dos povos originários, esta exposição oferece um material didático de qualidade inegável.

Kabengele Munanga
São Paulo, 01 de maio de 2025

“Pisar na terra dos ancestrais de Frechal me assombrava… me transportei para o Benim”. C.L.

Culto animista nascido no antigo reino de Daomé, o Vodum personifica uma profunda conexão com a natureza, os ancestrais e forças invisíveis. Patrimônio cultural do Benim, o Vodum é reconhecido oficialmente como religião do Estado desde 1996 e continua a desempenhar um papel vital na sociedade beninense até hoje. Ele é onipresente na vida cotidiana.

BOLÍVIA - MINA SIGLO XX

Siglo XX , hoje!

Entre 1984 e 1985, a fotógrafa belga Christine Leidgens documentou o cotidiano dos trabalhadores da mina Siglo XX, no altiplano boliviano. Localizada em meio à cordilheira dos Andes, a mais de 4.000 metros de altitude, a mina foi um dos principais centros de extração de estanho da Bolívia no século XX. Nacionalizada após a Revolução de 1952, a mina passou ao controle da COMIBOL (Corporação Mineira da Bolívia), estatal responsável por administrar a produção e também as condições de vida dos operários.

Em meio às montanhas de pedra, a multidão de trabalhadores, em sua maioria indígenas, funde-se à paisagem, seja no cotidiano, nas lutas por melhores condições de vida ou na suspensão dos retratos capturados pelas lentes de Christine. Dentre as personagens desse cenário mineral, podemos testemunhar os olhares dos contratados formais, dos contratistas (remunerados por tarefa), dos locatários (que arrendavam poços desativados), dos lameros (que filtravam resíduos minerais), dos veneristas (que escavavam as próprias galerias) e dos jucus (que vendiam minério extraído de forma clandestina). Todos estavam imbuídos de um trabalho que aprisiona e liberta, em constante balanço entre a resistência e o conformismo.

A presença das mulheres foi fundamental tanto no âmbito familiar como na organização política da comunidade. Grande parte delas trabalhava como palliris, selecionando manualmente as pedras que ainda continham vestígios de estanho, labor exaustivo e mal remunerado, geralmente assumido por viúvas ou mães solteiras.

A consciência de que a exploração se estendia do trabalhador à toda família levou à criação do Comitê das Donas de Casa (Comité de Amas de Casa), uma das principais formas de mobilização coletiva da época.

O comitê tornou-se um espaço de articulação política, denúncia das condições de exploração e reivindicação de direitos básicos para as famílias dos trabalhadores. A figura de Domitila Barrios de Chungara, líder operária de Siglo XX, tornou-se símbolo da participação feminina nas mobilizações da classe trabalhadora boliviana.

Além do papel produtivo e político, as mulheres também garantiam a preservação e a transmissão de práticas culturais e rituais andinos, como as oferendas à Pachamama, durante cultos sincréticos celebrados no interior da própria mina. Sua atuação, simultaneamente doméstica, econômica, religiosa e militante, foi decisiva para a coesão social em um ambiente marcado por condições extremas de trabalho e sucessivas repressões militares que permearam toda a história da mina. Mesmo após a nacionalização, o Exército interveio violentamente nas greves e mobilizações, como ocorreu no massacre de 24 de junho de 1967, durante uma festa de São João.

Pode-se ler a história de Siglo XX por meio dos olhares, das peles, das vestimentas, dos gestos e silêncios representados nas fotografias de Leidgens. A realidade precária é abordada pelo registro da luta por direitos, que, embora dura e seca, é apresentada, não como espetáculo, mas de forma afirmativa, expressa nos traços daqueles que, apesar de tudo, continuam agarrando-se à vida por si e pelo outro.

Gabriel Gutierrez
Julho de 2025

No acampamento da SIGLO XX, os mineiros e suas famílias vivem em condições precárias: moradias apertadas, sem água potável nem saneamento básico. Cabanas, escolas, hospitais, lojas e pontos de água pertencem exclusivamente à COMIBOL (Corporação Mineradora Boliviana), empresa estatal que detém a propriedade das minas e administra os acampamentos.

A 380 km de La Paz, capital da Bolívia, a mina SIGLO XX tornou-se símbolo da resistência operária e das lutas dos mineiros, em um país cuja riqueza mineral subterrânea paradoxalmente contribuiu para a extrema pobreza da maior parte de sua população.

Apesar da diversificação industrial da mineração na Bolívia e da descentralização da COMIBOL em 1986, esta empresa estatal permanece ativa, mantendo papel relevante na economia e na gestão do setor mineral do país.

“Vinda de Cuzco a caminho de Bolívia, tenho em mãos o livro de Domitila Chungara, que um amigo delicadamente colocou na minha mala antes da minha partida, na Bélgica. Finalmente dominando o espanhol, mergulhei nele. Fui absorvida, permeada, impactada e, sem qualquer desvio, ele me conduziu a SIGLO XX. Tive que ver com meus próprios olhos a aridez da paisagem, a dureza da vida dos mineiros, sua resistência inabalável e a luta implacável das mulheres contra a exploração dos trabalhadores, testemunhada com tenacidade no livro”. C.L.

No século XX, a mineração de estanho superou a mineração da prata em importância econômica e estratégica.

Durante 35 anos, os mineiros da SIGLO XX estiveram na vanguarda da classe trabalhadora boliviana. Fortemente organizados e combativos, enfrentaram repetidas vezes a repressão do Estado, tornando-se exemplo e inspiração para trabalhadores de outros setores, incluindo o movimento camponês.