Exposição

O Maranhão por Pierre Verger

16 março 2021

As fotografias e textos abaixo exibidos integram a exposição O MARANHÃO POR PIERRE VERGER, criada pela curadora Paula Porta e montada nas dependências do CCVM. 

As 80 imagens foram selecionadas dentre as 516 fotografias feitas pelo fotógrafo no Maranhão, em 1948, pertencentes ao Acervo da Fundação Pierre Verger, responsável pela guarda de 62 mil negativos produzidos por Verger ao longo de sua trajetória, além de seu acervo documental, biblioteca e objetos.

Diante da conjuntura que enfrentamos, a exposição somente poderá ser vivenciada em nosso espaço quando as condições sanitárias estejam restabelecidas com segurança para todos. Optamos, então, por disponibilizar seu importante conteúdo de forma digital para que já possa ser desfrutado por um amplo público.

Esta versão digital da exposição procura preservar a narrativa criada pela curadora, que a dividiu em núcleos temáticos, criando textos explicativos e uma biografia que destaca a importância de Pierre Verger como fotógrafo e como pesquisador. O projeto curatorial inclui também textos dos convidados Alex Baradel e Luiz Phelipe Andrés, que trazem informações e conhecimentos valiosos para a compreensão das fotografias. Parte das imagens foi identificada na pesquisa curatorial e com a consultoria de Jandir Gonçalves e, novamente, Phelipe Andrés, grandes conhecedores das coisas do Maranhão. 

Boa visita!

 

Texto curatorial

Paula Porta

Curadora

Verger chega ao Maranhão no início de sua longa jornada brasileira, dois anos após ter fixado residência definitiva em Salvador e pouco antes de se tornar um importante investigador das relações culturais e religiosas entre o Brasil e a África.

Esteve em São Luís entre 20 de agosto e 3 de setembro de 1948, no retorno de uma viagem ao Suriname e ao Haiti, antes passara por Belém. Dali a dois meses, seguiria novamente para a África Ocidental, para uma permanência de mais de mais de dois anos entre Senegal e Benin, onde realiza suas primeiras pesquisas, dentre elas uma investigação sobre a origem da Casa das Minas.

Como mostram as fotografias aqui expostas, antes mesmo de iniciar sua grande trajetória de pesquisador, seu olhar já buscava a África no Brasil. A permanência das culturas africanas, sua resistência e suas transformações ao incorporar elementos das terras onde aportaram foram tema de uma vida para Pierre Verger. E acabaram por determinar sua migração da fotografia para a pesquisa histórica-antropológica, que resultou em trabalhos referenciais, como sua tese de doutorado – Fluxo e refluxo do trato de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos, séculos XVII a XIX (1968) – e o derradeiro Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá, passando pela pesquisa sobre os orixás.

Seus inúmeros trabalhos chamaram a atenção e nos ajudaram a reconhecer e melhor compreender a religiosidade, o conhecimento tradicional, a filosofia e tantos outros aspectos das culturas africanas presentes no Brasil, sobretudo a iorubá. Aspectos formadores de nossa própria cultura, mas sempre ocultados e até então (década de 1950) bem pouco conhecidos. Verger também investigou a presença da cultura brasileira na África, levada pelos retornados. Em um de seus artigos aponta a existência do Bumba Meu Boi na comunidade de descentes de brasileiros em Ouidah (Benin).

O fluxo e refluxo do próprio fotógrafo e pesquisador entre os dois lados do Atlântico tornou essa produção de conhecimento viva e singular. Sua iniciação no candomblé da Bahia, realizada por Mãe Senhora, e no Ifá, do Benin, ampliaram sua percepção e as possibilidades de interpretação do que registrou e pesquisou.

No Maranhão, não chegou a conhecer o Bumba Boi, mas conheceu a força do Tambor de Crioula, do Divino Espirito Santo e das casas religiosas africanas presentes na cidade, acompanhado pelo pesquisador da cultura popular Domingos Vieira Filho. Também foi ciceroneado pela escritora e poeta Lucy Teixeira, por Francisco Teixeira, Pires Saboya (representante dos Diários Associados em São Luís) e alguns outros.

Verger circulou pela Praia Grande, registrando suas ruas. Deteve-se longamente na área mais popular e tradicional da zona portuária, onde fotografou o movimento das embarcações tradicionais de madeira, um dos ícones do patrimônio cultural maranhense, e documentou lindamente a coreografia dos estivadores, com seus movimentos coordenados, além da faina dos catraieiros com seus casquinhos e catraios, apoiando o embarque e desembarque de pessoas e mercadorias.

As fotos da pesca do tubarão mostram a forte presença dessa atividade naquele momento e acabaram rendendo uma série de imagens do embarque do gelo em barras nas embarcações pesqueiras que captura nosso olhar.

As duas casas religiosas africanas mais antigas de São Luís receberam diversas visitas do fotógrafo, não apenas para os registros, mas para longas conversas com suas chefes, confirmando que sua intenção de se aprofundar no conhecimento da religiosidade afro-brasileira já estava presente. Os retratos históricos que realizou na Casa da Minas e na Casa de Nagô documentam o protagonismo das mulheres, que iniciaram e deram seguimento a estas e outras casas religiosas delas originadas, uma presença que permanece forte no cotidiano de São Luís.

O fotógrafo foi também a alguns arrabaldes no entorno do centro, possivelmente no João Paulo (há uma anotação solta em sua caderneta, que nos leva a cogitar que tenha fotografado ali) realizou registros raros da punga de homens em uma roda de tambor, que ele curiosamente identificou como Tambor de Crioulo. Numa região rural, foram feitos belos retratos de caixeiras do Divino Espírito Santo e documentada uma pequena festa onde se vê caixeiras meninas, mais um registro singular.

Em uma curta viagem para além de São Luís, Verger foi a Itapecuru Mirim registrar a extração e o processamento do óleo de coco babaçu na Fábrica Babassu. Também registrou ali a confecção do cofo de “cú trucido” e da mensaba, e o socar das amêndoas de babaçu no pilão, atividades onipresentes no Maranhão até os dias de hoje.

Sendo agosto, Verger teve a oportunidade de conhecer o Festejo de São Raimundo de Mulundus em seu local de origem, produzindo imagens também raras, poucos anos antes dessa festa – uma das maiores manifestações religiosas do Maranhão – ser transferida para a sede de Vargem Grande.

De tudo que Verger fotografou no Maranhão, grande parte ainda está presente e viva. O que permanece, por que e como permanece? Essa indagação emerge ao passearmos pelas imagens aqui expostas.

Dessa única viagem fotográfica que realizou no Maranhão, apenas 15 a 20 fotografias chegaram a ser publicadas em livros ou integraram exposições, o restante permaneceu quase desconhecido. As 80 imagens selecionadas para esta exposição dão conta dos temas que Verger explorou nessa viagem e constituem um conjunto de grande relevância, não apenas para os maranhenses.

Esta exposição procura ampliar o acesso do público ao acervo de imagens históricas sobre o Maranhão e, mais uma vez, celebrar a força da cultura negra em nosso país, legado de culturas africanas que ainda não conhecemos tanto como deveríamos, mas que Pierre Verger nos ajudou a enxergar, melhor compreender e valorizar.

A Hierarquia no Porto

Luiz Phelipe Andrés

Pesquisador do patrimônio cultural maranhense,
membro da Academia Maranhense de Letras

A cidade de São Luís nasceu do mar das navegações e sua fundação e evolução se fez em torno das atividades portuárias. O núcleo original em malha urbana quadrangular foi estrategicamente localizado no promontório formado pela confluência dos Rios Anil e Bacanga, diante da baía de São Marcos.

O litoral do Maranhão é singular, assolado por marés de quase sete metros de amplitude, a cidadela original estava pois margeada por extensões de areia e mangues. A grande variação de marés impõe condições especiais de aproximação, pois a profundidade se reduz drasticamente em poucas horas. Veleiros oceânicos estavam obrigados a fundear nos canais de águas mais profundas, o que garantia seu calado mesmo nas marés baixas. O transbordo de cargas e passageiros era feito com a intermediação de pequenas embarcações denominados casquinhos ou catraios, a vela ou a remo.

Na vertente do rio Anil, a norte da cidadela, serviam de local de embarque e desembarque as extensões arenosas do Jenipapeiro, do Ribeirão, do Caju e Praia Pequena. No comando das pequenas canoas os marinheiros de então, ao contornar a cabeça do promontório em direção ao oeste, passavam das muralhas da Fortaleza de São Luís e se encontravam diante da extensão da Praia Grande e em seguida, da Praia do Desterro, defronte ao Convento das Mercês. Finalmente podiam navegar até alcançar uma reentrância maior, protegida da batida d´água e das fortes correntezas do canal do Rio Bacanga e que penetrava em meia lua até a Fonte das Pedras. Por muito tempo as condições de atracamento continuaram precárias e exigiam demorados procedimentos de baldeação. Para minimizar estas dificuldades foram sendo realizadas obras de aterramento dos lamaçais e praias e construção de pequenos cais e rampas.

Dentre estas iniciativas, a mais expressiva foi a construção do Cais da Sagração (1841), por ser o mais extenso e robusto. Após esta obra, os navios de maior porte puderam atracar de forma que permitia a retirada da carga direto para o cais, com a mão de obra ainda escrava de arrumadores e estivadores. No entanto, a obra do Cais da Sagração não se concretizou em toda a extensão do projeto original, ficou restrita ao trecho desde a frente do Rio Anil até onde se localiza hoje o segundo baluarte e a rampa do Palácio. Daí, na direção sul, foram feitas outras obras de aterramento e construídos cais menores, como o da Praia Grande, chegando até o pequeno Cais de Santo Ângelo, a meio caminho entre a Praia do Desterro e do popular Portinho.

Estas diferenças de infraestrutura portuária acabaram criando uma hierarquia, uma diferença de status entre as embarcações, que se revela nas falas de Mestre Severino, o personagem central do romance de Josué Montelo, Cais da Sagração. As falas do pescador carregam a revolta pela discriminação contra as pequenas embarcações artesanais movidas à vela e que serviam ao transporte de pequenas cargas e de pescado, como os casquinhos, boiões, catraios, gambarras e até mesmo as canoas costeiras com suas velas coloridas, que não mereceram o mesmo privilégio propiciado pelas plataformas de muralhas de pedra argamassada do Cais da Sagração, reservado aos navios de maior porte provenientes da Europa.

A revolta de Severino é que sua pequena canoa de pesca e as demais ficavam restritas a encostar nas praias de areia e lama do Portinho que, não por acaso, recebeu e ficou eternizado até os nossos dias por esta designação diminutiva, bem diante da atual Igreja de N. S. do Desterro.

Essa espécie de hierarquia descendente no atracamento das embarcações se acentua na medida em que se distancia da estrutura dos cais de pedra. Até hoje, as menores canoas costeiras que transportam cofos de carvão e os barcos de catadores de caranguejos, que são os mais pobres dentre os pobres pescadores, descarregam sua produção ali no Canal do Portinho.

Não por acaso, o olhar sensível do fotógrafo Pierre Verger voltou-se preferencialmente para a faina das embarcações artesanais, justamente nessa zona portuária mais simples e pobre, quando visitou o Maranhão nos anos 40, registrando a beleza dramática deste cenário marginal, onde as humanidades se manifestam em toda sua dimensão.

Pesca do Tubarão

A pesca do tubarão/ cação era bastante comum em São Luís. O Maranhão tem forte presença de tubarões em sua costa, com mais de 19 espécies favorecidas pela grande oferta de alimento em razão da proximidade de rios e manguezais. A pesca artesanal fazia uso de espinhel, arpão e rede e durava mais de cinco dias em alto mar, resultando em peixes de até 800 kg. Nos trapiches do porto, além da carne, havia o processamento do couro. O tema despertou o interesse de Verger e sua fotorreportagem foi publicada na revista semanal O Cruzeiro, em 30/10/1948. 

Pierre Verger no Maranhão, um fotógrafo caminhando para a antropologia

Alex Baradel

Fundação Pierre Verger

Balladé, trainé, reposé: esses verbos, difíceis de traduzir em português e escritos por Verger nas suas agendas para descrever as suas atividades realizadas no Maranhão entre o dia 20 de agosto e 3 de setembro de 1948, ilustram a postura desinteressada e ociosa que o fotógrafo/viajante francês ainda tinha nessa época. Essa atividade que pouco tempo depois perderia em favor do pesquisador-escritor, como o exprimirá no final da sua vida: 

Antes [de escrever] eu era fotógrafo. Nada de explicações. Nunca me interessaram explicações. O que eu queria era ver coisas e gostar das belezas das coisas.

Pois existem dois períodos bem distintos na obra de Pierre Verger: o primeiro quando era fotógrafo-viajante e percorreu o mundo, do início dos anos 1930 até o fim dos anos 1940, sem claro objetivo senão encontrar outras culturas, outras pessoas e registrar esses encontros com a sua Rolleiflex. E o outro, do final dos anos 1940 até os anos 1970, quando se apaixonou pela cultura afro-baiana/ afro-americana e notadamente suas religiões (Candomblé da Bahia, Xangô de Recife, mas também Vodun no Haiti e Santeria em Cuba).

Mesmo se durante esse segundo período continuou viajando e fotografando, seus deslocamentos eram guiados agora pelo novo foco de interesse. Sua vida de fotógrafo despreocupado passou a ser guiada por suas atividades de pesquisador e escritor. 

Sua viagem ao Maranhão é particularmente interessante, pois se posiciona justamente num momento de transição entre esses dois momentos, quando Verger era ao mesmo tempo esse autodidata viajante, que perambula e vagueia – como ele escreve nos seus cadernos – e esse “pesquisador” que vai se aproximar da Casa de Nagô e da Casa das Minas, mas também fotografa os tambores de criolo ou o Divino Espírito Santo.

As fotografias feitas no Maranhão – enquanto ele ainda não era Fatumbi – refletem essas duas tendências de sua obra. Por um lado, as fotografias feitas sem intenções, ilustrando seu encontro com outras pessoas: são imagens mais poéticas, de corpos de homens carregando mercadorias ou se divertindo na ocasião de uma peregrinação. Por outro lado, há os retratos mais rígidos, as cerimônias fotografadas em interiores, com flash, imagens menos espontâneas e que podem ser vinculadas às pesquisas que Verger iniciará concretamente alguns meses depois, com a sua ida (retorno) para o Benim.

Aliás, no Maranhão, mas também no Pará de onde ele vinha, pode-se perceber uma terceira categoria de imagens que fogem, de forma geral, do resto da sua obra: clichés provavelmente realizados com uma intenção foto jornalística e destinados a serem publicados na mais importante revista sul-americana da época: O Cruzeiro.

Quando Verger chega pela primeira vez no Nordeste brasileiro, em 1946, ele tinha assinado, poucas semanas antes, no Rio de janeiro, um contrato de fotógrafo independente com O Cruzeiro, comprometendo-se a mandar uma grande quantidade de reportagens fotográficas sobre a região. Esse tipo de contratação era raro nos Diários Associados, os fotógrafos geralmente trabalhavam com pauta e sem grande liberdade. Essa exceção pode ser explicada pela fama que Verger tinha na época, pois suas fotografias, antes da guerra, já haviam sido publicadas em grandes revistas europeias e norte americanas como Life, Regards ou Vu. Foi provavelmente esse prestígio que permitiu a ele ser contratado para fotografar uma região que desconhecia completamente.

Essa relação contratual com O Cruzeiro teve consequências sobre a sua atuação como fotógrafo. A primeira é que ele tinha contatos com pessoas importantes do mundo editorial, cultural e artístico nas cidades e estados visitados, pois os Diários Associados eram muito influentes na época. Foi o caso na Bahia, através do escritor Odorico Tavares, então representante local da empresa jornalística, como também no Maranhão, através de José Pires Saboia Filho, representante em São Luís e uma das primeiras pessoas que ele encontrou na cidade. Assim, Verger tinha facilidades de ir a todos os lugares que desejava visitar, o que lhe permitia, em pouco tempo, fotografar diversos aspectos da cultura local.

A outra consequência de seu vínculo com O Cruzeiro, obviamente era a necessidade de mandar reportagens fotográficas. Nem todas as fotorreportagens mandadas por ele eram concebidas como tal. Algumas eram composições de fotos tomadas independentes, reunidas para publicação. Mas outras parecem ter sido pensadas para contar uma história visual. 

As fotografias da pesca ao tubarão realizadas em São Luís são uma perfeita ilustração. Nesse caso, Verger retratou uma atividade do seu início (foi acompanhar os pescadores no mar) ao fim (tratamento do tubarão no porto), caracterizando assim a foto reportagem. O próprio assunto, com forte potencial editorial, ao contrário das temáticas geralmente fotografadas por Verger, também reforça essa interpretação. “Tubarão”, com texto de Franklin de Oliveira, foi publicada na edição de 30 de outubro de 1948 e foram as únicas fotos feitas por ele no Maranhão publicadas. O que não significa que Verger não tenha mandado outras, há um conjunto de fotografias da exploração de Babaçu, feitas em Itapecuru Mirim, que indicam também claramente uma intenção fotojornalística.

As fotografias realizadas por Verger no Maranhão e destacadas nessa mostra, apresentam aspectos da cultura Maranhense da metade do século XX, com forte carga poética e documental, assim como ilustram um momento em que a obra fotográfica de Verger se diversifica, anunciando o crepúsculo da sua fotografia e o nascimento do seu trabalho escrito. 

Considerando que Verger foi um precursor da antropologia visual não somente no Brasil, mas no mundo, o trabalho realizado por ele nesse período – 1946-1948, incluindo as fotografias que vemos aqui, apresenta diversas possibilidades de investigação, inclusive dentro da história da fotografia brasileira.

Praia Grande

“Fui a São Luís do Maranhão, cidade um pouco morta, mas cheia de encanto, com suas casas antigas de vários andares e fachadas cobertas de azulejos. De meu quarto, tinha uma vista sem igual sobre um mar de telhados cobertos de telhas romanas. Havia também belas fontes públicas ornadas com cabeças de sátiros ferozmente barbudos, que cuspiam água durante todo o dia, e pude saudar a estátua do Senhor de La Ravardiére, um compatriota que foi o fundador da cidade”.

Pierre Verger

Casa das Minas

“Fui ver Mãe Andresa, que presidia as atividades da Casa das Minas, onde se praticava o culto dos vodus, cujos nomes me pareceram então muito misteriosos: Zomadonu, Naiadono, Aronovissava, Bepega, Sepazin, Maité, Agongono e outros tantos ainda. Não sabia o papel que aqueles nomes iriam representar alguns meses mais tarde para facilitar minhas pesquisas no Daomé”.

Pierre Verger

A Casa das Minas Jeje (Querebentã de Zomadônu) foi estabelecida por africanas no início do século XIX. Nas palavras do pesquisador Sergio Ferretti, “é a casa mãe de outros tambores de mina do Maranhão e da Amazônia”. Verger visitou Mãe Andresa diversas vezes durante sua estadia. Na década de 1940, os pesquisadores Nunes Pereira e Octávio da Costa Eduardo apontaram que parte dos voduns ali cultuados poderia ser identificada com integrantes da antiga realeza do Daomé.

Verger investiga essa hipótese quando vai ao Benin, poucos meses depois de deixar o Maranhão, e verifica que nomes citados por Mãe Andresa só eram conhecidos pelos sacerdotes iniciados. Segue pesquisando e, em 1953, apresenta texto em que aventa a possibilidade de que a Rainha Nã Agontimé tenha chegado ao Maranhão como escrava e fundado esta Casa, cultuando seus ancestrais dentre os voduns, sendo conhecida como Mãe Maria Jesuína.

Casa de Nagô

“Havia nessa mesma cidade uma Casa dos Nagôs, dirigida por Rosalina Rodrigues, onde se praticava, em princípio, o culto dos orixás nagô-iorubás, como na Bahia. Mas alguns santos, que não tinham qualquer ligação com esse culto, apareciam também. Ali fui testemunha, no dia 25 de agosto, dia de São Luís, Rei de França, de quando aquele augusto soberano reapareceu na terra, 662 anos após sua morte, para reencarnar no corpo de uma filha de santo da casa. Quando lhe disseram que havia um francês na sala, São Luís exprimiu sua satisfação e o desejo de que eu lhe fosse apresentado. Fui assim recebido em audiência real, mas nossa conversa foi entabulada em português… isso, sem dúvida nenhuma, como sinal de polidez e de consideração para com o público reunido, que não poderia acompanhar uma conversa mantida em nossa língua”.

Pierre Verger

A Casa de Nagô (Nagon Abioton) foi fundada na primeira metade do século XIX, por Zefa de Nagô e Maria Joana Tavares – possivelmente nascidas na Nigéria e em Angola. Segundo alguns, é anterior à Casa da Minas; outros apontam que tenha sido criada poucos anos depois. Ambas tiveram grande influência sobre as casas religiosas que vieram posteriormente. A estudiosa Mundicarmo Ferretti chama a atenção para a singularidade da Casa de Nagô, que apresenta “numerosas diferenças dos terreiros nagôs de outras denominações afro-brasileiras”. Por sua influência, o uso dos abatás (tambores de origem nagô) espalhou-se pelos terreiros maranhenses. A Casa guarda forte relação com o Tambor de Mina e laços antigos com a Casa das Minas. Atualmente ambas estão com sua atividade religiosa pausada. Em sua curta estadia no Maranhão, Verger visitou a Casa de Nagô diversas vezes, nessa época era chefiada por Honorina Oliveira Pinheiro.

Festejo de São Raimundo de Mulundus

O Festejo de Mulundus é realizado em homenagem ao santo vaqueiro, uma devoção popular em sua origem cultivada pelos trabalhadores das fazendas de gado e por quebradeiras de coco da região. Existe há mais de dois séculos e teve origem no local da Fazenda de Mulundus, onde foi erguida a Capela de São Raimundo. Posteriormente, foi associado a São Raimundo Nonato. Em 1954, foi transferido para a sede de Vargem Grande para que a Igreja pudesse ter maior controle sobre a festa, contrariando o desejo dos devotos.

Trata-se de uma das maiores festas religiosas do Maranhão. Verger fotografa o festejo em seu local de origem e a capela que já não existe. Registra também a estrutura de apoio aos romeiros, os caminhões que os transportavam e as diversões associadas à festa, como jogos de azar, leilões, bailes e a roda cadeiras suspensas, conhecida como Onda Marinha, que contava com músicos tocando no centro.

Pierre Verger, 1902-1996

Pierre Verger por Marcel Gautherot, 1950
© Instituto Moreira Salles

1902 
Pierre Édouard Léopold Verger nasce em Paris (4 de novembro), filho caçula de uma família de industriais do setor gráfico.
1932
Aprende a fotografar e adquire sua primeira câmera Rolleiflex. Inicia suas viagens fotográficas no Taiti, onde permanece um ano. Começa a colaborar com revistas e jornais.
1934
Retorna a Paris, expõe suas fotografias no Museu de Etnografia do Trocadero (futuro Museu do Homem). Torna-se responsável pelo laboratório fotográfico do Museu, acompanhando o início de grandes missões etnográficas francesas que buscam artefatos, sobretudo na África. Cobre a viagem ao redor do mundo dos jornalistas M. Chadourne e J. Sauerwein, passa pelos Estados Unidos, Japão, China, Filipinas, Singapura, Colombo e Djibouti.
1935
Viaja de bicicleta pela Espanha, depois pela França e Itália. Faz sua primeira viagem à África (que dura seis meses), pagando a passagem com fotografias publicitárias para uma empresa de transporte terrestre. Inicia pelo Mali, vai ao Togo, Benin e Níger, retornando pela Argélia.
1936
Vai às Antilhas: Martinica, Dominica e Guadalupe. Segue para Cuba e México.
1937
Funda a agência Alliance Photo com quatro amigos fotógrafos. Colabora com as agências ADEP e Magnum. Fotografa a Exposição Universal de Paris. Atua como correspondente de guerra na China. Segue para as Filipinas.
1938 
Vai ao Vietnã, ao Camboja e ao Laos. Retorna a Paris, poucos dias depois é convocado pelo exército francês e segue para Lorena, sendo desmobilizado três semanas depois.
1939
Retorna ao México, vai à Guatemala e ao Equador.
1940
É convocado para a guerra e segue para o Senegal, atuando como fotógrafo do Governo Geral da África Ocidental. Poucos meses depois é desmobilizado, deixa a África via Cabo Verde e chega ao Brasil, onde busca trabalho para sobreviver.
1941
Passa um tempo em Buenos Aires.
1942 
Vai à Bolívia e ao Peru, onde se estabelece como fotógrafo do Museu Nacional em Lima.
1946 
Deixa o Peru, viaja pela Bolívia e chega ao Brasil, via Corumbá. Passa por São Paulo, onde encontra o antropólogo Roger Bastide, então professor da USP, que o encoraja a conhecer a Bahia, reforçando seu antigo desejo, despertado pela leitura de Jubiabá, de Jorge Amado. 
Permanece três meses no Rio de Janeiro obtendo visto de permanência. É convidado a fotografar para a revista O Cruzeiro (com a qual colaborou de até o fim da década de 1950). 
Desembarca na Bahia em agosto e se estabelece no Hotel Chile, que será sua base por quatro anos. A forte influência africana presente na cidade e o papel da religião na afirmação da identidade negra despertam seu interesse. 
1947
Incentivado por Odorico Tavares, seu parceiro nas reportagens para O Cruzeiro, inicia suas viagens pelo Nordeste brasileiro, produzindo reportagens e visitando casas religiosas afro-brasileiras, principalmente no Recife.
1948
Vai a Paramaribo (Suriname) conhecer os descendentes de escravos ashanti, que criaram aldeias na floresta. Segue para o Haiti para conhecer o vodu. No retorno passa por Belém e, em agosto, chega ao Maranhão, onde seu interesse pela religiosidade afro-brasileira o leva a visitar diversas vezes a Casa das Minas e a Casa de Nagô. 
Dois meses depois de deixar o Maranhão, segue novamente para a África, passa pelo Senegal, onde acerta com Institut Français d’Afrique Noire (IFAN) o financiamento de sua pesquisa sobre a religiosidade iorubá. Segue para o Benin, onde investiga a hipótese (aventada por Nunes Pereira) de que alguns vodus cultuados na Casa das Minas estavam relacionados à família real de Abomey. Desta longa viagem e estadia resultarão suas primeiras publicações como pesquisador e seu maior envolvimento com a cultura iorubá. 
1949
Em Ouidah (Benin), tem acesso a documentos comerciais que comprovam o tráfico clandestino de escravos e inicia a pesquisa que concluirá como tese de doutorado dezessete anos depois.
Vai ao Zaire (então Congo Belga) realizar um trabalho encomendado e defronta-se com a violenta segregação imposta pelo colonialismo europeu. Nesta viagem também alcança Ruanda.
Prossegue suas pesquisas na África, realiza trabalhos para museus e instituições africanas e francesas. Suas fotografias começam a despertar interesse para a pesquisa antropológica. 
1951
Retorna à Bahia. Na França, é publicado o livro Brésil, com os primeiros resultados de suas pesquisas. A partir de então publicará dezenas de artigos e livros sobre as culturas negras dos dois lados do Atlântico. 
Trabalha como fotógrafo na pesquisa sobre o preconceito racial no Brasil, promovida pela Unesco. 
É iniciado por Mãe Senhora, que consagra sua cabeça a Xangô. Passa a exercer a função de ogã no Axé Opô Afonjá em Salvador.
1952 
Retorna ao Benin. Em Ketu (local de origem dos fundadores dos primeiros terreiros da Bahia) é iniciado no Ifá, torna-se babalaô (senhor das adivinhações) e recebe o nome de Fatumbi (renascido pela graça de Ifá), passando a ter maior acesso ao conhecimento sobre as tradições iorubás. 
Volta a Dakar (Senegal) e é cobrado pelo IFAN, que lhe concedera duas bolsas de estudo, a escrever os resultados de sua pesquisa. Passa dezoito meses na Ilha de Gorée, realizando o trabalho, que é publicado dois anos depois.
1954 
Publica Dieux d’Afrique Culte des Orishas et Vodouns à l’ancienne Côte des Esclaves en Afrique et à Bahia, la Baie de Tous les Saints au Brésil, trabalho sobre a cultura iorubá, com fotografias dos deuses incorporados e descrição de cada orixá, seu ritual e suas atribuições. 
1957 
Viaja ao Senegal e depois a Cuba, para reportagem encomendada por O Cruzeiro. A partir de conversas com a pesquisadora cubana Lydia Cabrera, traça paralelos entre as divindades desses países e as do Brasil. Vai novamente ao México.
1962 
Torna-se membro e depois diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique na França.
1963 
Vai à Nigéria, onde permanece por três nos, dedicando à pesquisa e elaboração de sua tese.
1966 
Obtém o título de doutor pela Universidade Sorbonne, em Paris, com tese sobre o tráfico de escravos. 
1968
Sua tese – Fluxo e refluxo do trato de escravos entre o Golfo do Beini e a Bahia de Todos os Santos, séculos XVII a XIX – é publicada em Paris. Torna-se referência ao documentar o tráfico direto entre os dois lados do Atlântico e as relações entre o Brasil, Benin e Nigéria (publicada no Brasil somente em 1985).
Participa da criação do Museu de Ouidah (Benin) no antigo forte português, cedendo fotos e material de suas pesquisas.
1973 
Começa a organizar em Salvador o Museu Afro-Brasileiro, a pedido do Ministério das Relações Exteriores (inaugurado somente em 1982). 
Encerra sua trajetória de fotógrafo, concentrando-se nas pesquisas sobre a diversidade religiosa dos povos saídos da África e o uso das plantas pelas populações negras. 
1974
Torna-se professor visitante da Universidade Federal da Bahia. 
1976 
Doa seu herbário para o Departamento de Botânica da UFBA após realizar a classificação iorubá das plantas, com a colaboração de Alexandre Leal.
1977
Trabalha como professor visitante na Universidade de Ifé, na Nigéria, onde permanece três anos, promovendo o intercâmbio com pesquisadores baianos.
1980
Retorna ao Brasil, é recontratado pela UFBA e passa a cuidar da tradução e publicação de seus trabalhos pela editora Corrupio.
1981 
Seu trabalho fotográfico é exposto no MASP (São Paulo) e no Museu de Arte da Bahia, tornando-se mais conhecido no país. 
1989
Cria a Fundação Pierre Verger, sediada em sua casa, no Engenho Velho de Brotas (Salvador), onde organiza sua vasta biblioteca, seu arquivo pessoal e se dedica à classificação de seus 62 mil negativos fotográficos, fazendo a identificação de pessoas e lugares neles retratados. 
1992
Em homenagem a seus 90 anos, é realizada a exposição Brasil África Brasil, na Pinacoteca do Estado de São Paulo
1993
Seu trabalho fotográfico é exposto em Lausane e Paris.
1996 
Publica o livro Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá, resultado de anos de pesquisas. 
Falece no dia 11 de fevereiro. 

 

“Verger foi um etnólogo de um tipo muito especial. Preocupado em não trair seus pares, os indivíduos e os povos que crêem nessa religião e a praticam, ele vai desempenhar um triplo papel:
  • o de divulgador, junto ao grande público, no intuito de defender essas crenças e, sobretudo, a pertinência e a atualidade da mensagem social do culto dos orixás e dos voduns, num mundo que se torna cada vez mais materialista;
  • o de pesquisador que procura descobrir a história e mostrar a perenidade dos cultos iorubá nas sociedades ocidentalizadas, estudar as relações envolvidas e os sincretismos resultantes; 
  • o de mensageiro entre os povos dos dois continentes. Não o de um mero correio, mas o de um mensageiro que conhece a ambos os grupos. Alguém que foi encarregado por eles e que se dedica a fortalecer ainda mais os cultos herdados dos antepassados”. 
Jean-Loup Pivin e Pascal Martin Saint-Leon

Fotografias

Acervo Fundação Pierre Verger

Bibliografia consultada

Ana Socorro Ramos BRAGA. A Missão das Filhas de São João Antonio Farina no Brasil (1967-2017). (Sobre a Festa de São Raimundo dos Mulundus)
Maria Laura V. de Castro CAVALCANTI. “A Casa das Minas de São Luís do Maranhão e a Saga de Nã Agontimé”. Rio de Janeiro, Sociologia & Antropologia, 9, n. 2, 2019. Disponível online (Apresenta todo o percurso das pesquisas sobre a Casa das Minas).
Mundicarmo FERRETTI. “Identidade e resistência em um terreiro de Mina de São Luís: a Casa de Nagô“. In: VASCONCELLOS, Márcio. Nagon Abianton: um estudo biográfico e histórico sobre a Casa de Nagô. São Luís, 2009.
Sérgio FERRETTI. Querebentã de Zomadônu. Etnografia da Casa das Minas. Rio de Janeiro, Pallas, 2019
Angela LUHNING – “Pierre Fatumbi Verger e sua obra”. Salvador, Afro-Ásia, 21-22, 1998-1999. p. 315-64.
Jean-Loup PIVIN e Pascal Martin SAINT-LÉON. Pierre Verger. Le Messager. The Go-Between. Photographies 1932-1962. Paris, Édition Revue Noire, 1993.
Maria do Rosário Carvalho SANTOS. Boboromina: Terreiros de São Luís, uma interpretação sociocultural. São Luís, Secma/ Sioge, 1989.
Pierre VERGER. 50 Anos de Fotografia. Salvador, Fundação Pierre Verger, 2011.

 

Consultoria para identificação das fotografias

Jandir Gonçalves
Luiz Phelipe Andrés