Exposição

Desmanche

Em sua primeira edição nacional, o Ocupa CCVM traz ao público Desmanche, exposição coletiva que reúne 33 obras de 11 artistas brasileiros.

Com curadoria de Gabriel Gutierrez, a exposição situa o lugar de brecha e do fazer artístico como horizontes  para a reinvenção das realidades instituídas em tempos de crise. Partindo do conceito de desmanche, a mostra convida à reflexão sobre o contexto de vida atual, propondo questionamentos que consideram o estado de movimento como determinante para a produção de conhecimento.

As obras selecionadas possuem em comum o desejo de estabelecer uma nova ordem para as coisas, entendendo que muitas situações e hábitos estabelecidos perderam sentido. Neste contexto, a reinvenção é a saída encontrada. É preciso desmanchar para construir.

Boa visita.

 

Classificação indicativa: 16 anos

Desmanche

“…E as mãos dos amigos nos conduzem…
E as mãos dos coveiros nos enterram!”
Monólogo das Mãos – Giuseppe Ghiarone
 
“E genialis – genial – é a vida que distancia da morte
o olhar e responde sem hesitação
 ao impulso do gênio que o gerou”
Genius – Giorgio Agambem

O destino do mundo pertence à dubiedade das mãos.

Os dedos em pinça conformam a humanidade, afastando-nos de tudo que parece animal. Talham o humano. Tudo constroem: palácios, torres, fortalezas e prisões – e desconstroem: distâncias, florestas e civilizações. Tecem as mais lindas tramas e emboscadas. Envenenam o copo e maceram as ervas para a medicina. Curam.

As mãos viram as páginas. Criam dobras. Revelam, como que por acaso, os lados da moeda. Lançam os dados, distribuem as cartas, giram a roleta. As mãos falam, ofendem, ameaçam. Inoperam. As mãos, executoras dos desejos humanos, sobretudo, profanam. Mão esquerda e mão direita.

O poder passa de mãos em mãos, pelas mesmas, desde tempos imemoriais. As mãos escrevem, assinam, chancelam. Apertam os botões. Cumprimentam. Selecionam, afirmam e rejeitam. Criminosas e traidoras, incriminam-se, apontando a si mesmas. A existência das mãos é tão complexa, que já nascem rés.

As mãos pensam: e se não houvessem as mãos? E se não fosse possível acenar, pegar, segurar, cumprimentar, estapear, cortar, contar, desmanchar?

Desmanche

O sufixo manche remete ao latim manica, ou, o que se pode segurar com as mãos. É também a manga de proteção em couro e metal usada pelos gladiadores sobre o braço de controle de suas armas, e que funde o membro ao uno da armadura. Como prolongamento, designa empunhadura – de uma espada, por exemplo. Desmanche, em outro sentido, designa ação e movimento. Sendo a cessação de um estado primeiro, propõe a separação e quebra da unidade. O mesmo agente que veste, desveste. O que antes era coeso para ser segurado com as mãos, agora já não é mais. O bolo, na mão da criança que o aperta, vai ao chão em migalhas. 

Como movimento, o desmanche é um mecanismo de profanação em si. Devolve o homem ao solo, às horas, ao dia após a noite. Impele-o a soltar a espada, colocando-a novamente no quotidiano ordinário do uso. Desmanchar é fazer bom uso e devolver ao lugar servil.

No campo da experiência, o braço nu é falível, incerto e palpável. Sem a armadura, está aberto ao golpe fatal e certeiro, exposto o cerne do engenho (lat. ingenium, genius, generare), ou daquilo que gera e justifica o uso. Ao esfacelar-se a unidade da armadura, propõe-se a situação complexa e o lugar preciso da incerteza daquilo que constrói, destrói, sacraliza e profana. A  zona do risco e do não conhecimento é, então estabelecida, abrindo a brecha para o inexpresso, inominável, ao novo. É uma gênese, revelação da vida que ainda não nos pertence, própria dos que não se mantêm estáticos  – peregrinos, passageiros, mambembes, ciganos, índios, fugazes, mortais.

O movimento desafia a propriedade privada. Pode-se desmanchar um muro, uma costura, ou um carro. Deixar aberto, nu, desaparecido. O desmanche do automóvel é flagrante, pelo emprego corriqueiro da palavra. O veículo que é apenas roda, carburador, para-brisa, motor, já não é mais veículo. A única parte que vai ao lixo é a placa, que lhe define a unidade apropriável. Todo o resto, ganha novo uso no mercado. Desmanchar devolve, assim, as coisas ao comum.

Embora as nomeações hegemônicas para o campo aberto do risco e da experiência atribuam aos comuns o erro e o fracasso, sabemos que é justamente nessa fenda onde mora o mar de possibilidades. Erremos, mas erremos cada um em seu lugar, diria a professora Jamira Muniz, que sabe o local de encontro e rompimento do que está sacralizado.

O desmanche subverte a ruga do sagrado onde se empoleiram os pretensiosos (AGAMBEM, 2007). Restitui ao uso público, ao fluxo, ao movimento, à possibilidade da morte, à tragédia, ao humano, sem dramas. Desmanchar é um ato de profanação, não pelo limbo prisional do consumo, mas antes, por retomar das mãos dos deuses.

Gabriel Gutierrez

São Luís, 12 de março de 2021.

Voz de disparo - Wilka Sales

A vídeo-performance é uma alegoria para  o período do isolamento social, para  fragmentação humana e desintegração dos corpos. A ação acontece ao entardecer, com sons da cigarra, dos pássaros da noite e da Dança Macabra (1875), do compositor francês Camille Saint-Saëns.

Wilka Sales

Sinais de fumaça

Sinais de Fumaça - Wilka Sales

Na década de 90, eu, minha mãe e irmãos avistamos no céu de Grajaú (MA), região Nordeste, uma nuvem, aparentemente manipulada por algum objeto não identificado. Era uma nuvem  de fumaça alaranjada e ela permaneceu sob nossas cabeças por alguns minutos, suspensa, há mais ou menos 5 metros de altura. Minha mãe correu e nos colocou para dentro de casa, e nunca mais a vimos, depois daquele dia.

Wilka Sales

Wilka Sales

Artista visual, arte-educadora, mestranda em Artes pela PPGARTES/ICA/UFPA, graduação em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Maranhão/UFMA.
A performance artística em suas poéticas visuais engloba a fotografia e o vídeo, podendo ser auto-performance, foto-performance, vídeo-performance e filme-performance. Utilizo ferramentas disponíveis e improvisadas a partir de investigações sobre corpo, memória e lugar ampliando e desdobrando a pesquisa em arte.

 

Estar a par: passo a passo

Estar a Par - Passo a Passo - Tales Frey

Em uma série de criações elaboradas entre 2015 e 2019, materializei objetos, indumentos e adornos corporais que pudessem colocar corpos em convívio, possibilitando que singularidades distintas partilhassem uma experiência de conexão, exercício prático e lúdico sobre o viver em democracia. De repente, com a eclosão da pandemia, o que antes marcava clara oposição ao cenário opressor da realidade sociopolítica brasileira, tornou-se uma analogia do impossível,  em consonância com a suspensão do convívio tátil. O vídeo `Estar a Par – Passo a Passo ́ (2019) – ainda que seja uma obra autônoma – documenta uma dessas criações em que artefatos específicos possibilitam que corpos ganhem configurações escultóricas e que se aproximem da dança.

Tales Frey

Tales Frey

Artista transdisciplinar representado pela Galeria Verve de São Paulo. Vive e trabalha entre o Brasil e Portugal. Realiza obras amparadas tanto pelas artes visuais como cênicas, situadas entre a performance, o vídeo, a fotografia, o objeto, o adorno/indumento e a instrução. O corpo e a performatividade são motes de especulação, tanto nas suas criações práticas, como nas suas pesquisas acadêmicas.
Tem graduação em Artes Cênicas – Direção Teatral pela UFRJ,
mestrado em Teoria e Crítica da Arte pela Universidade do Porto, doutorado em Estudos Teatrais e Performativos pela Universidade de Coimbra e cursa pós-doutorado em Artes pela Universidade do Minho.
Apresentou trabalhos em eventos e instituições nacionais e internacionais, como: SESC no Brasil, The Kitchen e Sattelite Art Show em Nova York, Musée des Abattoirs em Toulouse na França, MACRO – Museo d’Arte Contemporanea di Roma, Centro Municipal de Arte Helio Oiticica no Rio de Janeiro, BienalSur em Buenos Aires, Akureyri Art Museum na Islândia, TSB Bank Wallace Arts Centre em Auckland na Nova Zelândia, Galeria Labirynt na Polônia, Defibrillator Gallery em Chicago, Galleria Moitre em Turim, Kuala Lumpur 7th Triennial – Barricade na Malásia, The Biennial 6th Bangkok Experimental Film Festival na Tailândia, entre outros. Alguns de seus trabalhos integram permanentemente acervos públicos e privados, dentre eles: Museu Serralves e Museu Bienal de Cerveira em Portugal, MUNTREF em Buenos Aires, Pinacoteca João Nasser, MAC Niterói, MAM RJ e MAC USP no Brasil.

O presente trabalho suscita  aproximações entre mitologia, tradição, arte, cultura, identidade e fotografia, partindo de um levantamento de referências sobre a mitologia da viagem da Cobra-Canoa da Transformação ou, como é chamado na língua Tukano, Pamürɨmasa (os “Espíritos da Transformação” ou “que saíram da água do rio”).

A construção de tal elemento visual é realizada por imagens fotográficas das pinturas gráficas tradicionais dos rostos e corpos dos pajés, benzedores e artesãos das etnias do Rio Negro, os grafismos dos artesanatos, como o banco Tukano, a cestaria Baniwa, artefatos de benzimentos, entre outros itens, sob um novo olhar.

Os indígenas herdaram as tradições de seus antepassados. Do bojo da “Cobra-Canoa da Transformação”, o Pajé de hoje recebeu os conhecimentos, e assim sabe como realizar o benzimento de cura de seu povo; o artesão herdou a forma de trançar a fibra de arumã; as mulheres aprenderam a pintura dos grafismos. As imagens buscam o efeito simbólico dos espíritos de seus antecessores, da “Cobra-Canoa da Transformação”.

O trabalho conta com a parceria da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), representante legal da Casa de Produtos Indígenas do Rio Negro – Wariró, e das associações indígenas que atuam no fortalecimento da produção de artesanato, como a Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI) e a Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (ASSAI).

Paulo Desana

Paulo Desana

Atua desde 2010 como cinegrafista e fotógrafo indígena, colaborando com agências de notícias. Já expôs trabalhos de artes visuais, como “E nós Parente?”, na 4ª edição do Festival Arte como Respiro, realizado pelo Itaú Cultural, de 11 de novembro a 21 de dezembro de 2020. No mesmo ano, foi selecionado com a fotografia “Flautas de Cerimônia/Dabukuri”, no prêmio Indígenas.BR, do Centro Cultural Vale Maranhão. 
Juntamente com “Flautas de Cerimônia/Dabukuri”, teve a fotografia “Barqueiro ao pôr do sol” exibida na exposição “Luz do Norte: Foto em Pauta na Estrada – Amazônia”, no Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes (MG), em novembro de 2020. No mesmo mês, teve dois registros fotográficos escolhidos para ilustrar um artigo da Global Poverty Project (Global Citizen), sobre a importância da Amazônia como marco zero para uma das maiores batalhas do mundo. A organização internacional de educação e defesa trabalha para catalisar o movimento para erradicar a pobreza extrema.
Além do seu trabalho como fotógrafo, atuou como cinegrafista para o projeto de registro do patrimônio cultural, social e ambiental do povo Yepá Mahsã – Tukano da terra indígena Balaio.

A instalação propõe uma experiência sensorial e visual, explorando materiais que instigam o desejo do espectador por suas formas e cores vibrantes. Ela amplia as possibilidades da rede, pois desloca a técnica do crochê, levando-o para um novo contexto, quebrando paradigmas relacionados ao fazer feminino, atribuídos à delicadeza do material e da técnica.

Marcos Ferreira

Marcos Ferreira

Nascido em São Luís, é artista visual, stylist, cenógrafo e proprietário da marca Desalinho, uma empresa de moda maranhense. Desenvolve trabalhos há
mais de 11 anos na área das artes visuais, sendo premiado três vezes no Salão de Artes Visuais de São Luís/MA. Desenvolveu também parceria com outros segmentos artísticos (música, teatro e cinema). Atualmente é sócio- proprietário da Haus 337, uma casa de criação, produção de moda, brechó e eventos e residente no Ateliê Marlene Barros.

Dito popular atribuído a lugares com pessoas mentirosas e enganadoras. A relevância dessa instalação, situa-se em primeira instância, pela contribuição original de uma produção inédita, com tema vinculado à cultura popular, estabelecendo vínculos com os conceitos da arte contemporânea na Bahia e no Brasil, conectando o local ao global. Coloca o espectador dentro do ninho, no lugar dúbio de vítima e cobra venenosa.

Ieda Oliveira

pedra falsa

Pedra Falsa - Ieda Oliveira

Intervenção realizada em 2015, na subida da Santa Cruz, em Monte Santo (BA), a obra joga com os diversos sentidos das palavras, materiais e da representação.

Nesse percurso de aproximadamente 4 km e 500 m de altitude, fui atiçada pela memória desconhecida do local, mas ao mesmo tempo pertencente à minha identificação cultural e às minhas vivências de infância, quando viajei diversas vezes com meus familiares, como cumpridora de promessas, para romarias em outras cidades da Bahia.

Subir a serra em uma ação artística foi um ato de coragem e fé. As emoções sentidas durante a intervenção foram inúmeras. O percurso na via sacra do sertão é para ser experimentado e vivido por quem tiver coragem. Foi uma experiência singular. Tenho certeza que, em dias de romaria, outros sentimentos e sensações são despertados nos fiéis que, com muita devoção, sobem unidos por cânticos, fogos de artifícios, velas acesas e, muitas vezes, descalços para ampliar o sofrimento. Tudo isso traz uma outra aura para o local místico atribuído a grandes milagres.

Ieda Oliveira

com a cabeça nas nuvens

Com a Cabeça nas Nuvens - Ieda Oliveira

Com a Cabeça nas Nuvens, é uma expressão popular que significa: estar fora da realidade, longe dos fatos reais, pertencente às pessoas sonhadoras. Minha particular interpretação é evadir-se, ir onde vivem nossas fantasias, nossos sonhos, e onde, às vezes, viajamos para fugir da dura realidade.

As nuvens são interpretadas de diferentes formas em diversas culturas. Representam uma separação entre dois mundos cósmicos. Como elaboradoras da chuva, relacionam-se com a manifestação celeste, simbolizando o devir de metamorfoses, como também associam-se às fontes de fertilidade. Devido à sua natureza de impermanência, podem simbolizar desapego e deslocamento. Divisão entre terra e céu, divino e humano, nas mitologias grega e romana, as nuvens aparecem agarradas ao Monte Olimpo e representam a morada dos deuses. Já segundo a antiga tradição chinesa, a nuvem simboliza a transformação que o sábio deve sofrer, renunciando a seu ser perecível para alcançar a eternidade, representando uma elevação espiritual. Para o esoterismo islâmico, a nuvem é a manifestação da nebulosidade da vida corrente. A nuvem envolve os raios de luz que atravessam a escuridão da vida humana, pois não seríamos capazes de suportar tamanha iluminação de uma vez. Por isso, segundo o islamismo, é sob a sombra de uma nuvem que se evoca o Alcorão e se atinge a epifania de Allah.

As nuvens também são mensageiras, de acordo com o seu aspecto. Se escuras e pesadas, antecedem as tempestades, dão-nos sinal de acontecimentos negativos. Já nuvens claras, cheias e luminosas são sinais de acontecimentos positivos. Há também a interpretação mais racional, meteorológica, das diferentes formações de nuvens – cúmulos, estratos e cirros – que aportam informação para fazer previsões do tempo.

Gosto particularmente da referência ao jogo, tão simples como universal, de buscar reconhecer formas e caras nas nuvens. Nele, se experimenta a riqueza da subjetividade humana ao trabalhar a percepção visual e a abstração ao reelaborar sua forma.

Ieda Oliveira

Ieda Oliveira

Vive e trabalha em Salvador (BA). doutora em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia, Escola de Bela Artes – UFBA (2017), graduada em Artes Plásticas pela EBA/UFBA(1998). Já teve sua obra exposta na 26ª Bienal Internacional de São Paulo, III Bienal do Mercosul, II Trienal de Luanda. Fez residências artísticas na Kunstlerhaus de Hamburgo na Alemanha e no Taipei Artist Village, em Taiwan.
Realizou mostras individuais internacionais em Berlin, Munchen, Siegburg, Alemanha e em Taipei, Taiwan. Participou de mostras coletivas no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB (RJ) e na SOSO, Galeria de Arte Contemporânea (SP), Participou da mostra itinerante Mostra Nordeste de Artes Visuais, Museu Murilo Lagreca (PE), Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte (RN), Centro Cultural do Banco do Nordeste (CE), Museu Assis Chateaubriand (PB), Galeria CESMAC de Arte Fernando Lopes (AL).
Em 2018, ganhou o Prêmio FUNARTE – Periferias e Interiores. Em 2019, participou da mostra À Nordeste no SESC 24 de Maio em SP e Orquestra para Pássaros no
Goethe Institut da Bahia. Em 2020/2021 participa do Projeto RUA (Roteiro
de Arte Urbana) inaugurando a instalação permanente intitulada – Haras para
M.B.O – na Praça da Inglaterra.
Em Salvador, já expôs diversas vezes no Museu de Arte Moderna da
Bahia, Museu da Bahia, Goethe Institut, Galeria Acbeu, dentre outras galerias.
Realizou várias intervenções urbanas nas ruas da capital baiana e em cidades
do interior da Bahia. O seu interesse temático reflete e revela aspectos originais
do cotidiano baiano e nordestino com a interface transdisciplinar na
contemporaneidade, conectando o local ao global.
Laissez-faire Nº1 - João Angelini

Laissez-faire Nº 1 faz parte de uma série de pesquisa em que investigo gesto das mãos de operários manipulando objetos/coisas. A análise decupada do gesto é feita por meio da reconfiguração de vídeos-registros dessas ações em desenhos animados de rotoscopia (quando se desenha por cima do fotograma do vídeo). Ao se desenhar as mãos, escolho não desenhar o objeto que está sendo manipulado, deixando apenas o movimento e o gesto específico da relação.

Iniciada em 2016 e concluída em 2018, Laissez-faire Nº 1 mostra as mãos de um soldado da PM de Planaltina (DF), fazendo a rotina de manutenção de sua pistola antes da saída para o serviço. Cada movimento é característico e programado para verificar peças e evitar possíveis falhas durante seu uso.

Apesar do processo tradicional e artesanal para a realização da animação, a obra não é apresentada apenas como vídeo. A escolha não é o confinamento desses milhares de desenhos em uma programação de um dispositivo videográfico que só apresenta ao público o resultado de um processo como acontece no cinema.

Ao apresentar os 1800 desenhos na parede, a instalação oferece para o espectador a possibilidade de visualização da estrutura fílmica em processo, que se torna, também,  espacial, um lugar a ser percorrido. O vídeo materializado permite que o fruidor possa escolher a ordem e o tempo em que se relaciona com cada imagem da estrutura, antes refém dos dispositivos videográficos. Próximo aos desenhos, uma projeção veicula a mesma cena no formato eletrônico e tradicional de vídeo.

João Angelini

João Angelini

Morador de Planaltina (DF), artista plástico e pesquisador, tem nas questões processuais, nas reflexões dos modos de fazer, limites e convergências de linguagens e técnicas o maior ponto de partida para pesquisas, mas encontra
na vivência periférica, nas relações de poder dentro do sistema, nas estratégias de controle e opressão, um tom implícito que permeia o que produz.
Entre os prêmios já recebidos, figuram: Prêmio Nacional Sesc ConVida 2020, Arte como Respiro – Itaú Cultural 2020, Novas Efervescências – E.C. Porto Seguros (SP) 2019, finalista do CNI – Marcantonio Vilaça 2017, Rumos do Itaú Cultural (2014, 2009 e 2006), Bolsa Funarte de Produção (2011) e Anima Mundi (2009).
De 2008 a 2018 foi membro do Grupo EmpreZa de Goiânia, período de muita vivência em residências nacionais e internacionais, discussões, produções coletivas e participação em uma série de eventos expressivos como as mostras Caos e Efeito (2011), Eu Como Você (MAR-2014), Terra Comunal, Marina Abramovic (2015), Premio Marcantônio Vilaça (premiados 2015) e Dark Mofo (Tasmânia – 2016).

à mão livre

o homem pensa porque tem mãos

O homem pensa porque tem mãos - Júnior Suci

O trabalho consiste em duas obras de registro (desenho e vídeo) e tratam da mão humana livre, trazendo, de maneira sutilmente irônica e até debochada, técnicas desenvolvidas ao longo do tempo, acertos e erros – e, porque não, “irreconhecimentos” de todo tipo. Se observados, livros, revistas e tutoriais impressos ou virtuais que se propõem a “ensinar” a prática do desenho e do fazer artístico, até na atualidade, chega-se à defesa da realização de imagens e formas feitas de modo livre, sem moldes; arte feita à mão livre, portanto.

Junior Suci

Junior Suci

Nasceu em Americana (SP), é graduado em Artes Plásticas pela UNESP, mestre e doutorando em Artes Visuais pela UNICAMP. Realiza pesquisa e produção em desenho e vídeo. Dentre as principais mostras individuais: Performance pela Luz, no Centro Cultural São Paulo (2009), Minhas Pequenas Vitórias, na Galeria do IBEU/RJ (2011), Necessidade do Objeto, no Centro Universitário Maria Antônia/SP (2011) e Película (2012) e A ruína (2013), ambas na Galeria Virgilio (SP).
Das coletivas recentes destacam-se a mostra O agora, o antes, no MAC USP- Nova Sede/SP; o Salão do Museu de Arte de Ribeirão Preto/SP; a 5ª Mostra de Pequenos Formatos no Atelier Subterrânea/RS; o Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba/SP e The Letter, prêmio Funarte de Arte Contemporânea na FUNARTE/MG.
Possui obras nos acervos do MAC USP/SP, SESC/AP, Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (MS). Atualmente é representado pela galeria Virgilio, em São Paulo.

a conquista do inútil

A conquista do inútil parte do desejo de remix técnico fundado numa pesquisa estética/ arqueológica do imaginário das (in)utilidades mecânicas, geradas pela produção e consumo industrial. Artefatos à manivela, hoje descartados ou descontextualizados como objetos estéreis de decoração que contêm em si o gesto de trabalho, circular, maquínico, são base para a criação de uma nova e pequena orquestra performática-instalativa de corpos sonoros homem-máquina.

Manivela 1

Baseada em um antigo abridor de latas, a peça mantém suspenso um cilindro de cordas apoiadas em um par de alto-falantes retroalimentados por molas móveis. Ao se girar a manivela, o continuum de cordas pinçadas é amplificado e processado por um circuito eletrônico integrado à peça e enviado via bluetooth para sistema de som externo. 

Manivela 2

Teclas e mecanismo de acordeon são integradas a um descascador mecânico de laranjas. As teclas pressionadas, conjuntamente ao girar da manivela, geram sons diversos por via eletrônica e mecânica, amplificados e projetados por um grande cone de alto-falante-suporte que sustenta a própria peça. 

Marcelo Muniz e Cadós Sanches

Cadós Sanchez

Nasceu em São Paulo, em 1982. Pós-graduado pelo Instituto de Artes da Unesp. Desde 1995, desenvolve trabalhos ligados a poesia visual para espaços públicos. Pesquisa sobre instrumentos sonoros/musicais na vertente da luteria experimental, arte sonora e instalações sonoras.
É idealizador do Panorama da Luteria Experimental e colabora com as iniciativas do Circuito de Improvisação Livre de São Paulo. Atua em cursos, curadoria, performances e exposições em diversos festivais, espaços culturais e residências no Brasil e em outros países.

Marcelo Muniz

Graduado em Física, doutor em Neurociências pela Universidade de São Paulo com pesquisa voltada à psicoacústica e cognição musical. Sua trajetória inclui trabalhos como violonista e luthier.
Atualmente desenvolve trabalhos em arte sonora e música experimental envolvendo performances, concepção e construção de objetos sonoros e ambientes instalativos.
Tecitura do Eu - João Almeida

Trata-se da memória afetiva e do processo de reconhecimento identitário. São recortes de passado e símbolos que colaboram para um entendimento sobre mim mesmo e minha identidade. Há, em cada elemento da obra, a afirmação dos meus processos de criação, percebidos desde a infância, e das relações de aprendizado obtidas com as artesanias dos meus pais e avós. 

O modo como trato meu reconhecimento enquanto pessoa e artista, trazendo à tona essas memórias de infância e experiências vividas até agora, é muito particular, mas em essência é um processo vivido por todos nós.

Refaço uma trajetória,desfaço-me de peles, tramo e desmancho linhas para me reconhecer e também firmar quem sou, sem perder a consciência de uma vivência em constante construção. Dessa forma, hoje, consigo me posicionar como artista, como pessoa Queer, frente a uma sociedade que tenta me reprimir desde criança. Conseguir criar e expor um trabalho artístico neste momento, é portanto meu modo de resistir e existir.

João Almeida

João Almeida

Nasceu em Luís Domingues, região da pré-amazônia maranhense,  e reside atualmente em São Luís (MA). É graduado em Licenciatura em Artes Visuais pela UFMA.
Combina diferentes técnicas e práticas artísticas, mesclando intervenção urbana, pintura, instalação, performance, cenografia e materiais naturais e têxteis. Suas pesquisas atuais rebuscam questões de identidade e gênero, ressignificando memórias e elaborando pensamentos sobre relações humanas.

O projeto “Arregaça: o mito do ser pacífico” tem como fio condutor o desejo de registrar a própria história, pela lente de nossas vivências enquanto mulheres, diferentemente do que foi invisibilizado pela história androcêntrica, hegemônica e patriarcal em que estamos imersas. De forma debochada e escrachada, proponho um jogo com imagens apropriadas da internet, juntamente com fotografias caseiras executadas por mim, em situações um tanto incomuns. 

Em “Rembrandt não tem provas mas tem convicção que é preciso amar sem Temer”, temos a apropriação da imagem da pintura de Rembrandt intitulada “A Lição de Anatomia do Dr. Tulp” – obra encomendada pela Associação de Cirurgiões de Amsterdã – onde alguns homens estão estudando um cadáver. A imagem do cadáver é substituída por dois cachorros copulando e, juntamente com esses homens, um autorretrato sem blusa, portando descontraidamente um copo de cerveja, como se estivesse batendo um papo em uma roda de amigos. Aqui, muitas camadas são lançadas, e questões que envolvem micropolítica, sexualidade, identidade, gênero, hegemonia histórica são mescladas a um humor debochado e sarcástico.

Camila Soato

Camila Soato

Nascida em Brasília (DF), é graduada em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília, onde concluiu seu mestrado em Artes Visuais. Hoje, é doutoranda em Poéticas Visuais pela Universidade de São Paulo.
Já teve suas obras exibidas em 38 exposições coletivas no Brasil e uma na Argentina. Individualmente, expôs em 12 galerias e espaços culturais de 2011 a 2018, ano em que participou 11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre.
Entre os prêmios recebidos, está o de Melhor Exposição, pelo Prêmio PIPA – Voto Popular, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Sobre arrancar cabeças e engolir parafusos

Educamos para a comunhão dos valores estabelecidos, para continuarmos.

Toda operação educacional, em maior ou menor escala, está ligada a essa forma de compreensão. Construímos para perdurar, e sendo assim, estamos predestinados ao aprisionamento. Queremos durar, e quanto mais materialista a cultura, mais difícil é lidar com a efemeridade das coisas.

Porém, a humanidade só é possível no exercício contínuo de ser e estar, movimento efêmero de transformação contínua. Embora este processo constante se dê aos nossos olhos, muitas vezes relutamos em enxergá-lo. Negamos o novo pelo apego à segurança que o convencional aparentemente nos oferece. Em todo caso, é com o que nos relacionamos costumeiramente.

Pensar sobre a perspectiva e a ação do desmanche é tratar do processo de humanização do bicho homem. A humanidade, a todo momento, mostra-se como um horizonte, e as experiências como o percurso necessário na tentativa de alcançá-lo.

Não à toa, a criança em seu desenvolvimento predispõe-se a experimentar. Pressente que é a melhor forma de absorver o mundo. É brincando que se comove com a existência. A ação de brincar serve ao compromisso de educar. Contudo, o brincar é expressão da cultura. Toda brincadeira, todo jogo, está condicionado a um processo de legitimação. Espera-se, com ele, a manutenção do que está dado como referencial.

Entretanto, o ato de brincar tem em sua composição a dualidade própria do jogo e de tudo que se compromete com a promoção de valores éticos. Brincar é também lidar com o inseguro, na condição do aprendizado de estratégias para conhecer e organizar o imprevisto, o desconhecido indispensável. Nesse sentido, a abertura para a sensibilidade, em relação à vida, está diretamente associada à noção do desmanche. O prazer de sentir e conhecer está inevitavelmente submisso ao ato de desmanchar. Desejamos tudo o que se desmancha na boca por ser revelador, e tememos tudo o que se desmancha nas mãos pelo transtorno deslumbrante do etéreo.

Desmanchar é estar em experiência com a complexidade das coisas, em estado de elaboração sobre os seus mecanismos. Conhecer é desestabilizar a ordem das coisas e dos afetos. O espanto nos propicia a experiência da queda fundamental. Nada está acabado e tudo está por ser feito. E é por isso que brincamos.

O brinquedo, objeto predestinado à brincadeira, diz muito sobre o que, para o que se educa, o que se espera das novas gerações e como os adultos se relacionam com os seus infantes. É na brincadeira que intuímos o poder do desmanche, rasgamos, abrimos, desmantelamos, arrancamos cabeças e engolimos parafusos.

Brincar é, de certo modo, tomar partido sobre o mundo e a forma de senti-lo. E desmanchar é condição impreterível à ação de brincar.

Ubiratã Trindade

São Luís, 10 de abril de 2021

a expografia

A exposição Desmanche faz parte do Programa Ocupa CCVM, que desde 2017 apresenta uma incrível e diversa seleção de trabalhos nas suas mais variadas formas de expressão.

A seleção dos  onze artistas  apresenta o desarranjo de estruturas, como a relação entre os trabalhos e o mundo. Para desmanchar-se é preciso que, antes, algo seja. A curadoria e a expografia conversam na direção de propor um espaço que se mostre como estilhaços e pedaços que se conectam para além da forma. 

Para esta edição, foi particularmente desafiador desenhar o espaço da exposição já que, possivelmente, a sua única forma de visitação será virtual. Tendo as restrições em que vivemos como premissa, juntamente com conceito curatorial, os suportes foram construídos tendo em mente a força individual de cada trabalho, a conexão entre eles e algo que pudesse ser experienciado online. 

As grandes paredes coloridas são como peças de um quebra cabeça aparentemente desconexo que cortam e pontuam o espaço.  Com estas escolhas, o convite é ter na exposição a sensação de construção de algo maior, não só em nossas relações, mas também como criadores de novas realidades possíveis.

Claudia Afonso

abril de 2021

Exposição coletiva Desmanche

Ocupa CCVM 2020/2021

Curadoria e Coordenação artística
Gabriel Gutierrez
Assistência de Curadoria
Deyla Rabelo
Expografia
Claudia Afonso
Iluminação
Calu Zabel
Comunicação Visual
Fábio Prata, Flávia Nalon (PS.2)
Produção
Alex de Oliveira
Pablo Adriano
Samara Regina
Fotografia
Clarissa Vieira
Montagem
Diones Caldas
Fábio Nunes Pereira
Marcos Ferreira
CENOTECNIA
Pintura
Gilvan Brito
Elétrica
Jozenilson Leal
Serralheria
José de Souza Cantanhede
Marcenaria
Edson Diniz Moraes
Nerilton Fontoura Barbosa
Paulo Eduardo Ferreira Diniz
Wilson Fontoura Barbosa
Direção
Gabriel Gutierrez
Assistência de Direção
Deyla Rabelo
Coordenação do Núcleo Educativo
Ubiratã Trindade
Educadores
Alcenilton Reis Junior
Erick Araújo
Maeleide Moraes Lopes
Coordenação de Comunicação
Edízio Moura
Fotografia, Design e Assistência de Comunicação
Clarissa Vieira
Coordenação de Produção
Alex de Oliveira
Produtores
Pablo Adriano Silva Santos
Samara Regina
Assessoria Financeira
Ana Beatris Silva (Em Conta)
Administrativo-Financeiro
Tayane Inojosa Barbosa
Ana Célia Freitas Santos
Recepção
Adiel Lopes
Jaqueline Ponçadilha
José de Ribamar Pinheiro Ferreira
Estagiários do Programa Educativo
Amanda Everton
Gabriel dos Anjos Costa
Guilherme Castro
Zeladoria
Fábio Rabelo
Kaciane Costa Marques
Luzineth Nascimento Rodrigues
Manutenção
Yves Motta (supervisão geral)
Gilvan Brito
Jozenilson Leal
Segurança
Charles Rodrigues
Izaías Souza Silva
Raimundo Bastos
Victor Silva
Diretor – Presidente
Hugo Barreto
Gerência
Flávia Constant
Christiana Saldanha
Equipe Técnica
Marize Mattos
Nihara Pereira
Joana Martins
Luciana Vieira
Juliana Alves
Elizabete Moreira
Eunice Silva