Afresco de Outono - Aberta à Visitação Virtual


“Arte é aquilo para o que se precisa simplesmente abrir os olhos.

O homem, no mundo, substitui a fatalidade em ações tão terríveis como a própria fatalidade. No entanto, ele é capaz de superar a fatalidade e a morte com o ato criativo do amor.”

ECI


texto curatorial

Mãe, pai, irmão, tios, professores de piano, tomadores de chá, plantas e corpos nus, santos e diabos, vivos e mortos formam o grande retábulo que ilustra o poema Afresco de Outono, de Evgeny Solomonovich Itskovich (ECI). As figura não são daqui! Vieram de fora! São russos! O ambiente, objetos, sujeitos e o delírio atestam o fato. No entanto, de fora, percebemos que a abordagem é íntima. Tudo está dentro, ou vem de dentro, e enquanto espelho, pela diferença e estranhamento, para aqueles que o miram, é um convite de sobrevoo para perceber o que nos une enquanto seres idiossincráticos, diversos  e originais. Tudo é estranho e familiar. Aliás, a família guarda em si uma área de sombra, indefinição e prisão, em que o limite intangível do outro é sempre testado e rompido. Famulus – escravo em latim – escravo doméstico, escravo do outro, o outro, sempre espelho.
Os rostos, que vemos,  são máscaras festivas, teatrais, funerárias. Pela extemporaneidade, aludem às diversas máscaras que marcaram a história da arte ocidental: os retratos de Fayoum, personagens de Renoir, Ensor, Chagall.  Aliás, a exemplo deste último, russo expatriado, a tradução plástica da memória natal revela o movimento de perpetuação do indivíduo deslocado em seu espaço-tempo. As máscaras são um furo: um portal. Inquisidoras, atônitas, debochadas e absurdas, apresentam-se como um espelho de mão-dupla, revelando quem está atrás e na frente delas.
As máscaras, apresentadas em Afresco de Outono, perpetuam os mortos, mesmo daqueles que, ainda vivos, esfumaram-se na construção das memórias. Toda a parafernália está presente no universo onírico, místico e absurdo, construído para a conquista do além, da eternidade e da lembrança. Todo o peso dos objetos e funções que definem os papéis sociais e familiares, gritam: Presente! – e assim, um pedaço da Rússia se naturaliza brasileiro. Ao final de tudo,  para a morte, ninguém é russo e somos todos escravos.
As pinturas de ECI chegaram ao Maranhão, juntamente com a família, em 2006. Hoje, integram o acervo do atípico Museu Russo, localizado no centro histórico de São Luís. Embora soe improvável, o universo proposto já é propriedade da cidade, e nesta exposição se aproxima do espectador para cumprimentá-lo. Parece assombrado? De fato. O outro é sempre assombrado, e só é possível trazê-lo à luz quando deixamos que ele more em nós, e ao mesmo tempo moremos nele. Esse é o convite que a catedral explodida dos quadros aqui reunidos nos faz. Diga olá! (Здравствуй!)
Gabriel Gutierrez
diretor e coordenador artístico do CCVM

a cena

A conversa entre a cena, a performance, a música e a obra pictórica e textual Afresco de Outono, revela a cumplicidade criativa dos membros da família Itskovich, com quem pude trabalhar enquanto diretora. Para a montagem do espetáculo propus a interação direta entre os performers, filhos do artista,  o público e as telas que constroem o cenário/instalação. As pinturas são personagens vivos e, com os atores retratados em muitas delas, funcionam como um espelho. A disposição tridimensional convida o público para adentrar o espaço. O texto conduz o jogo cênico e alinhava a relação entre os corpos presentes, a música e as obras.
O pensamento e a língua russa estão presentes por todo processo criativo de montagem. As falas e o canto serão dirigidos ao espectador ora em Português ora em russo, proporcionando uma imersão na sonoridade dessa fala magnífica, que tanto diz sobre aquilo que não pode ser traduzido.
Áurea Maranhão
Atriz, diretora e performer formada na Escola de Arte Dramática EAD/ECA/USP.
É atriz pesquisadora do grupo AP43, dirigido por Nara Sarakê, co-fundadora e produtora da Ordinária Companhia, grupo teatral com sede em São Paulo (SP), e sócia da produtora Marafona Blue. Estreou na Rede Globo no papel de Ticiana, na novela A Dona do Pedaço e tem estreia prevista na Netflix, atuando na série Cidade Invisível. Dirigiu o curta metragem Carnavalha, ganhador dos prêmios de melhor filme júri popular e melhor atriz para Áurea Maranhão nos festivais Maranhão na Tela e Guarnicê, e melhor filme Maranhense no troféu ABD 2017.

Afresco de Outono - Centro Cultural Vale Maranhão

Evgeny Solomonovich Itskovich
Evgeny Solomonovich Itskovich (Евгений Соломонович Ицкович) – ECI nasceu em 1959 no território da antiga União Soviética, na cidade de Kiev (atual capital da Ucrânia), onde vivia a família de sua mãe. Logo foi levado para Moscou, onde permaneceu até a sua vinda ao Brasil.
Escreveu suas primeiras poesias aos 12 anos. A criatividade de Evgeny preocupava sua mãe, que o levou ao psicólogo para uma consulta. O diagnóstico foi preciso: poeta.
Em paralelo, formou-se médico-socorrista. O amplo estudo da anatomia e fisiologia do corpo humano e o treino de um olhar clínico-diagnóstico tiveram grande impacto em sua arte. Durante este período, participou da expedição arqueológica ao Quersoneso, onde conheceu Liubov Itskovich, com quem se casou após um reencontro ocorrido quatro anos depois.
A partir da década de 1980, o jovem poeta buscou delinear seu espaço artístico através de récitas.  Em meio de amigos, em festas e em sua casa,  junto a sua esposa, expandiu seu público e foi convidado para declamar suas poesias para audiências cada vez maiores, como teatros, clubes de poesia, na rádio e outros espaços da capital russa.
Em 1995, já na Rússia atual, lançou seu primeiro livro de poesias “Placas do Coração”. Editado por Liubov e ilustrado com gráfica e quadros do seu irmão mais novo Dmitrii Itskovich, o livro foi premiado no concurso nacional Arte do Livro, em 1996, em Moscou.
Para o segundo livro Afresco de Outono, poema escrito em 1983, ECI assumiu o papel de pintar e ilustrar ele mesmo sua obra. Em 2002, ganharam vida suas primeiras telas.
Já em 2005, com o livro praticamente finalizado acontece sua primeira exposição na galeria Asti, em Moscou. Com muitas críticas positivas, parte das obras foram selecionadas para edição do disco-catálogo Artistas plásticos de Moscou 2005. Neste momento, seus filhos Evgeny e Maria já participavam dos recitais poéticos, com interpretações musicais e performances.
Em 2006, o artista realizou sua primeira exposição no Brasil. Intitulada  Próximo – Daquele Lado, a mostra foi montada na Galeria Antônio Almeida, no Palacete Gentil Braga, em São Luís. Encantado com a calorosa recepção e com a cidade, ECI  resolve mudar com sua família para São Luís, onde fundaram o Espaço Cultural Russo ECI MuseuM, com exposição permanentemente de suas obras.
Dentre os espaços que expuseram seu trabalho plástico estão: Galeria Antônio Almeida, Galeria Fernando P., Museu Histórico e Artístico do Maranhão, entre outros; e em Moscou: Galeria do Kiselev e Galeria Put Edinstiva, instituição muito conceituada na Rússia
por sua filha, Maria Itskovich.
Maria Itskovich
Atriz, cantora, compositora, palhaça, poetisa, dançarina popular, produtora e professora de música, é filha de ECI. Aos 16 anos, mudou-se da capital russa, Moscou, para a cidade de São Luís – MA, Brasil. Formou-se em canto lírico pela EMEM e licenciou-se em Música pela UEMA. É especialista em metodologia e lecionou piano e musicalização na UFMA. Em sua trajetória artística, fez parte da trupe circense Du-nada, grupos de dança popular Tambor do Mestre Amaral e  Cacuriá de Dona TetéCia. Direto da Fonte, banda de rock Ornitorrincos do Sertão Turu. Apresentou-se em recitais de canto lírico e interpretou Luna nos filmes da franquia Muleque té Doido, recorde do cinema maranhense. Também compôs trilhas para espetáculo Mulheres de Shakespeare, o curta Eu sou Patrimônio e performance Afresco de Outono.
Evgeny Itskovich
Natural de Moscou – Rússia, é pianista e compositor desde 14 anos. Em 2000, entrou no mundo do cinema e do audiovisual, atuando como diretor, roteirista e compositor de trilhas sonoras. É bacharel Cinema e Mestre em direção de cinema e TV, pelo NGUNN de Moscou, Rússia (2005), além de ser licenciado em Música pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA (2016). Em 2006, mudou-se para São Luís – MA, onde dirigiu filmes como: Alma e Corpo (2013), Olhares de Paz (2015), Somos uma só voz, (2017) e contribuiu ativamente com audiovisual no Maranhão, ministrando oficinas e cursos de cinema no festival Maranhão na Tela, na Semana de Teatro do Maranhão e na Semana dos Museus. Compôs e atuou como musicista para as peças Para Uma Avenca Partindo e Amor Obsessivo , da Cia. Teatro do Redentor e está no processo criativo da performance Afresco de Outono como o compositor da trilha musical, pianista e performer.
Entre 2016 e 2018, lecionou no Departamento de Música da Universidade Federal Do Maranhão – UFMA.
É co-fundador e um dos dirigentes do Espaço Cultural Russo ECI – MuseuM.
Atualmente, além de realizar atividades artísticas, leciona música e cinema, e está se especializando em Ensino de Arte e Música pelo Instituto Brasileiro de Formação.
Liubov Itskovich
Russa, nasceu em 3 de setembro de 1958, na cidade de Habarovsk (União Soviética), extremo oriente da Rússia, e aos 9 se mudou para Moscou. É Mestre em Arquitetura de Paisagem, pelo Instituto Tecnológico Florestal de Moscou, especialista em Guia Turística, membro da Fundação Internacional das Artes.
Além de trabalhar no campo de paisagismo, se dedicou a atividades educativas e culturais. Foi diretora do Colégio Particular Filipova, onde desenvolveu concepção educativa, organizando viagens, encontros e eventos culturais.
Idealizou a arte do livro de poesias Placas do Coração, de Evgeny Itskovich com ilustrações de Dmitrii Itskovich, com qual foi premiada no Concurso Nacional de Arte de Livro, no ano de 1995. O conceito do livro buscou aproximar o leitor da poesia, por meio de uma fusão com artes plásticas. Essa concepção impulsionou a criação do próximo livro, Afresco de Outono.
Após a chegada ao Brasil, junto à família, cria o espaço ECI MuseuM, onde coordena e gerencia projetos culturais, educativos e de meio ambiente, além de ministrar aulas da língua russa.

 


Afresco de Outono

Evgeny Solomonovich Itskovich

Performance Afresco de Outono

Direção: Áurea Maranhão

Performers e Músicos: Evgeny Itskovich e Maria Itskovich

Expografia

Gabriel Gutierrez

Iluminação

Calu Zabel

Comunicação Visual

Fábio Prata, Flávia Nalon e Gabriela Luchetta (PS.2)

Produção

Deyla Rabelo

Edízio Moura

Pablo Adriano

Marcos Ferreira

Samara Regina

 

Fotografia

Clarissa Vieira

Cenotecnia

Edson Santos

Montagem

Diones Caldas

Fábio Nunes Pereira

Marcos Ferreira

Pintura

Gilvan Brito

Elétrica

Jozenilson Leal

 

Direção e Coordenação Artística

Gabriel Gutierrez

Assistência de Direção

Deyla Rabelo

Coordenação do Programa Educativo

Ubiratã Trindade

Educadores

Alcenilton Valério Correa Reis Junior

Erick Araújo

Maeleide Moraes Lopes

Comunicação

Clarissa Vieira

Giselle Bossard

Coordenação de Produção

Edízio Moura

Produção

Marcos Ferreira

Pablo Adriano Silva Santos

Samara Regina

Coordenação do Financeiro e Administrativo

Ana Beatris Silva (Em Conta)

Financeiro

Tayane Inojosa

Administrativo

Ana Célia Freitas Santos

Recepção

Adiel Lopes

Jaqueline Ponçadilha

José de Ribamar Pinheiro Ferreira

Estagiários do Programa Educativo

Amanda Everton

Gabriel dos Anjos Costa

Guilherme Castro

Zeladoria

Fábio Rabelo

Kaciane Costa Marques

Luzineth Nascimento Rodrigues

Manutenção

Yves Motta (supervisão geral)

Gilvan Brito

Josenilson Leal

Segurança

Charles Rodrigues

Izaías Souza Silva

Raimundo Bastos

Victor Silva

Diretor – Presidente

Hugo Barreto

Gerência de Educação e Cultura

Flávia Constant

Camila Abud

Juliana Alves